Um Fantasma na Máquina
Original em https://www.daylightatheism.org/essays/portuguese/ghost.html
Parte
1: Introdução
/ Onde se Esconde a Alma?
É central para
muitas religiões, orientais e ocidentais, a doutrina do dualismo: a de que
existe uma essência imaterial chamada de alma, a qual habita e anima nossos
corpos e é a causa e a fonte da consciência, personalidade, livre-arbítrio,
pensamentos, ideias, sentimentos, emoções, o senso de si - em resumo, tudo o
que a pensa como sendo o "eu". Teístas tipicamente acreditam que a alma
sobrevive à morte física do corpo e continua adiante ao que quer que venha após
a morte, seja o além no Céu ou Inferno, ou a reencarnação em um novo corpo.
Eu sou um ateu
porque eu não tenho encontrado evidência alguma que me leve a acreditar que as
afirmações sobrenaturais de qualquer religião sejam verdadeiras, e a noção de
alma não é exceção. De fato, como este ensaio irá demonstrar, há forte
evidência contra a existência da alma em humanos, apontando em vez disso para a
alternativa do materialismo - que a mente não está separada do cérebro, mas sim
que surge e é produzida pela atividade neural dentro do cérebro. Dito de
maneira simples, a mente é o que o cérebro faz.
Em termos
práticos, deveria ser fácil julgarmos entre dualismo e materialismo, porque
diferente da maioria das doutrinas religiosas, a noção da alma é uma ideia que
implicaria ter consequências testáveis. Especificamente, se a mente humana é o
produto de um "fantasma na máquina" e não o resultado de interações
eletroquímicas entre neurônios, então a mente não devia ser dependente da
configuração do cérebro que a abriga. Em resumo, deveria haver aspectos da
mente que não têm nada a dever ao funcionamento físico do cérebro.
Até
recentemente, esta predição era difícil de testar, mas inovações científicas
modernas têm iluminado o assunto. Técnicas médicas como a TAC (tomografia axial
computadorizada), PET (tomografia por emissão de pósitrons) e RMN (exame de ressonância
magnética) permitem que a estrutura e função do cérebro viva sejam estudadas.
Cientistas podem ver quais áreas do cérebro se "acendem" de atividade quando
uma pessoa saudável realiza uma tarefa mental, ou eles podem examinar pacientes
que sofreram uma sequela ou uma doença para ver quais partes do cérebro, quando
afetadas, correspondem a quais déficits de função neural.
E já de cara, um
resultado desapontador para teístas tem surgido. Algumas funções mentais são
bem localizadas, enquanto outras são mais difusas, mas não existe nenhum
aspecto da mente que não corresponda a alguma área do cérebro. De fato,
sabemos precisamente várias regiões cerebrais que controlam muitos aspectos
fundamentais da consciência humana.
A imagem do
cérebro que é familiar à maioria das pessoas - o órgão de matéria cinzenta
retorcida, mais ou menos do tamanho de dois punhos encostados um ao outro - é
na verdade uma imagem apenas do telencéfalo, a área mais externa e
superior do cérebro. Nos humanos, o telencéfalo ocupa aproximadamente 80% do
volume cerebral total, e é responsável pela maioria das funções cognitivas de
alto nível. A fina camada externa do telencéfalo, de poucos milímetros de
grossura, é chamada de córtex cerebral ou simplesmente córtex, e é ele
que tem essa aparência distinta, cinzenta, enrugada, dobrada e retorcida.
("córtex" é "casca" em latim).
O telencéfalo é
dividido em dois hemisférios, o esquerdo e o direito, basicamente simétricos em
estrutura, imagens espelhadas um do outro. Existe certa especialização de
funções entre os dois; por exemplo, na maioria das pessoas a linguagem é
controlada inteiramente pelo hemisfério esquerdo. No entanto, em grande parte
os dois hemisférios fazem trabalhos semelhantes. Por exemplo, cada um recebe
estímulos sensoriais e envia comandos motores para um lado do corpo.
Cada hemisfério
é dividido em quatro regiões principais, chamadas de lobos: o lobo frontal,
o lobo temporal, o lobo occipital, e o lobo parietal. Grosso
modo, os lobos occipitais estão localizados na parte traseira do cérebro, os
temporais ao fundo, os parietais no topo do cérebro, e os lobos frontais, como
o nome sugere, na parte da frente, atrás da testa (Austin 1998, p.
150).
Cada lobo executa
uma variedade de funções. Os temporais, por exemplo, prestam um importante
papel na resposta emocional, memória e audição (e portanto na linguagem). Um
conjunto de estruturas no cérebro chamadas ao todo de sistema límbico, o qual é
responsável pelas primeiras duas funções, localiza-se principalmente dentro dos
lobos temporais. Os lobos occipitais ocupam-se a princípio com a visão, embora
os parietais também participem disso; os lobos parietais também processam
informação de outros sentidos, especialmente o tato. Finalmente, os lobos
frontais parecem ser resopnsáveis por muitas das qualidades que consideramos
como exclusivamente humanas, incluindo a personalidade e o que se chama de
comportamento "executivo": julgamento, motivação, planejamento e objetivos,
regulação e inibição de ações, tomada de decisões, controle de atenção, e
resposta apropriada a eventos e estímulos externos, entre outras coisas. As
funções dos lobos frontais, e as mudanças que podem ser produzidas ao se
danificá-los, serão discutidas em muito mais detalhes mais adiante neste
ensaio.
Com esta
plataforma básica em mente, podemos examinar aspectos mais específicos da
função cerebral. Por exemplo, uma seção do cérebro chamada de Área de Broca,
normalmente dentro do lobo frontal esquerdo (em pessoas canhotas ele pode em
algumas vezes estar no lado direito), controla a habilidade de produzir a fala.
Quando esta área é danificada por um derrame ou algum outro dano, o resultado é
uma condição chamada de Afasia de Broca, a qual torna a vítima muda, capaz de
entender a fala mas incapaz de falar por si. Uma seção vizinha chamada de Área
de Wernicke, no lobo temporal esquerdo, executa o papel inverso: dá-nos a
habilidade de entender a fala através da gravação das memórias de como
as palavras soam. Danos a esta área causam a Afasia de Wernicke, na qual o
paciente não consegue entender a fala, seja a sua própria ou a dos outros, e
fala apenas uma balbuciação sem sentido algum. (Como a vítima perdeu toda a
memória de como as palavras deveriam soar, ele está normalmente alheio ao fato
de que há algo errado com ele, e não entende por que não consegue ser
compreendido pelos outros.) Este jargão muitas vezes se parece com uma
linguagem e é realmente confundida com um idioma estrangeiro por alguém não familiar
com esta situação, muito embora não tenha sentido algum (Heilman 2002, p.
4). As implicações são evidentes para as seitas e religiões que acreditam em
glossolalia. ("falar em línguas).
Outras seções do
hemisfério esquerdo do cérebro são essenciais a outros aspectos da comunicação.
A estrutura conhecido como o giro angular esquerdo contém as memórias de como
as palavras são pronunciadas, enquanto que o giro supramarginal converte os
sons da fala em letras (Heilman 2002, p.
49). Dano causado a esses sistemas, ambos localizados no lobo parietal, podem
resultar em inabilidade de ler ou escrever, respectivamente conhecidos como
alexia e agrafia. (Bizarramente, algumas pessoas com típicos específicos de
sequela a essas regiões conseguem escrever, mas não ler). O giro esquerdo
angular também parece prestar um papel na habilidade matemática, já que pessoas
que sofrem sequelas nele algumas vezes se tornam incapazes de realizar até
mesmo os mais simples cálculos (Ramachandran
1998, p. 19). Sequela em toda a área de linguagem do
hemisfério esquerdo produz uma condição chamada de afasia global, na
qual o paciente é completamente incapaz de se comunicar; esta síndrome será
discutida em mais detalhes mais adiante.
A habilidade de
sintetizar a entrada sensorial em uma imagem coerente do mundo está associada
com regiões físicas do cérebro. O mais crítico de todos os nossos sentidos é a
visão, e o cérebro despende mais recursos para a percepção visual do que a
qualquer outra. Os lobos occipitais recebem dados de entrada dos olhos; grupos
celulares dentro deles são especializados em processar aspectos específicos da
visão tais como cor, bordas, forma e movimento (Heilman 2002, p.
183, 184). Informação do sistema visual então se separa em dois fluxos: o
sistema "onde" do lobo parietal superior, o qual nos ajuda a formar as
coordenadas espaciais dos objetos e navegarmos em nosso ambiente, e o sistema
"o quê" dos lobos temporais inferiores, occipital e ventral, o qual nos diz o
que é que estamos olhando (p. 100). Outras regiões, como o lobo parietal
direito, controlam percepções sensoriais do nosso próprio corpo; uma seqüela
nesta região produz um distúrbio bastante bizarro chamado de assomatognosia, na
qual o paciente é incapaz de reconhecer seu próprio corpo como sendo seu (p.
119). Estimulação elétrica do giro angular direito, uma subestrutura do lobo
parietal direito, pode causar experiências extracorpóreas (Blanke et al.
2002).
Há ainda outras
regiões cerebrais que controlam aspectos da consciência mais fundamentais do
que a habilidade de se comunicar ou de navegar. Enquanto que o hemisfério
esquerdo é tipicamente responsável por entender a linguagem em si, o direito
intermedia os aspectos emocionais da comunicação, tais como o tom da voz de
alguém ou a expressão em seu rosto. Uma sequela aos lobos parietais e temporais
do hemisfério direito podem tornar uma pessoa incapaz de compreender
demonstrações de emoção nos outros (Heilman 2002, p.
56).
Nossas emoções
também surgem a partir das funções do cérebro. O hemisfério esquerdo parece
governar a expressão de emoções positivas como felicidade e alegria, enquanto
que o hemisfério direito governa primeiramente as negativas, como raiva e
tristeza. Aqueles que sofrem sequelas no seu hemisfério esquerdo (deixando o
direito, mais volátil, "no comando") muitas vezes se tornam gravemente
deprimidas, mas sequela ao hemisfério direito pode deixar uma pessoa
emocionalmente indiferente, até mesmo constantemente eufórica (p. 75-76).
Estimulação elétrica de uma parte do cérebro, uma parte do sistema límbico chamado
de amígdala, pode produzir um medo intenso (Heilman 2002, p.
74), enquanto que uma estimulação de outras regiões pode causar risadas
incontroláveis e sentimentos de alegria (Ramachandran
1998, p. 201), e, ainda, estimular uma terceira região
chamada de ínsula, pode produzir sentimentos de náusea e nojo (Glausiusz 2002, p.
33). Estimulação elétrica de uma quarta região, o septo, produz sensações
consistentes de prazer, e frequentemente causa uma mudança súbita de humor, da
depressão ao otimismo (Austin 1998, p.
170).
A memória, um
aspecto fundamental da consciência, também está fortemente ligada a funções
cerebrais. Uma pequena região do cérebro chamada de hipocampo, entre outras
estruturas no sistema límbico, é crucial para formar novas memórias fatuais (Heilman 2002, p.
150); os efeitos que sua destruição causa sobre uma pessoa são no mínimo profundos.
A pergunta agora
que surge, é: onde nisto tudo está a alma? Em qual lobo cerebral ela habita? Onde
ela está se escondendo nesta teia de neurônios e sinapses?
No século XVII,
o filósofo René Descartes propôs que a alma interagia com o cérebro através da
glândula pineal, baseado em suas observações de que ela está localizada próxima
ao centro do cérebro e é a única estrutura cerebral que é simples, e não
duplicada. Infelizmente para Descartes, hoje sabemos que a glândula pineal é
meramente parte do sistema endócrino; sua função principal é produzir
melatonina, um hormônio que regula os ciclos de acordar e dormir, e influencia
o sistema imune, entre outras coisas (Heilman 2002, p.
3).
Então, onde está
escondida a alma? Área após área do cérebro tem entregado seus secretos às sondagens
da neurociência, e nenhum traço dela tem sido encontrado. Quanto mais o nosso
conhecimento avança, menos razão temos para supor que ela exista, e menos
sustentável se torna a posição dualista. Toda a evidência que atualmente
possuímos sugere que não existe nada dentro de nossos crânios que não obedeça
às leis normais da Física.
Isto não deve
implicar que não há nada de maravilhoso ou incrível sobre o cérebro. Pelo
contrário, ele é considerado, com certa justificativa, a forma de matéria mais
complexamente organizada do Universo. O cérebro humano médio tem mais de cem
bilhões de neurônios, conectados por centenas de trilhões de sinapses. Tão
imensa é a complexidade deste sistema, que se calcula que o número teoricamente
possível de estados cerebrais excede o número de partículas elementares no
universo conhecido (Ramachandran
1998, p. 8). O poder computacional bruto do cérebro tem
sido estimado entre 10 trilhões e 10 quatrilhões de operações por segundo (Merkle 1989). (Para
comparação, um dos supercomputadores mais rápidos do mundo, o Earth Simulator
em Yokohama, Japão, pode executar 36 trilhões de cálculos por segundo).
O fato de nossas
mentes surgirem do funcionamento de nossos cérebros não é nada com o que se
desanimar. Pelo contrário, as chamas da evolução têm gasto mais de quatro
bilhões de anos forjando o cérebro em um motor de assustadora complexidade e
poder computacional, apenas para legá-lo a nós. Foi-nos dado um privilégio
único e sem preço, um dom diferente de qualquer outra coisa no universo
conhecido. Entender esta herança deveria somente nos elevar, e aqueles que
afirmariam que esta maravilha orgânica não pode realizar nada por si só sem a
ajuda de sombras enfraquecidas de superstição estão apenas se enganando ao
substituir uma maravilha muito maior com uma bem menor.
Mas no fim das
contas, é a evidência que tem que decidir a questão, e é então para as
evidências que irei me dirigir. A Parte 2 deste ensaio irá apresentar e
defender a posição que, não só não existe evidência alguma a favor da
existência da alma, mas de que há fortes evidências positivas contra a
existência da alma, desenvolvendo um argumento que batizei de argumento da
unidade mente-cérebro. A Parte 3 irá discutir as causas neurológicas da
religião, argumentando que toda a experiência religiosa pode ser total e
parcimoniosamente explicada como o resultado da atividade eletroquímica dentro
do cérebro. A Parte 4 irá discorrer sobre mais alguns argumentos contra a
existência da alma, e finalmente, a Parte 5 irá considerar os maiores e mais
resistentes mistérios da neurociência - a fonte das percepções sensoriais, do
livre-arbítrio, da consciência - e mostrará que estas questões de forma alguma
oferecem suporte para o teísmo.
Parte
2: O Argumento da Unidade Mente-Cérebro
O que a alma
faz?
Incrivelmente,
ainda estou para encontrar alguma fonte teísta que explique isso. Aqueles que
abordam o tópico da alma parecem contentes em assumir que todo mundo sabe o que
ela é por quais funções ela é responsável.
No entanto,
ainda que nenhuma fonte teísta por onde passei explique claramente a natureza e
função da alma, é bem simples de deduzir estas propriedades baseado no que os
teístas afirmam acontecer à alma de alguém após a morte. Na estrutura de crença
de muitas religiões, quando o corpo de uma pessoa morre, sua alma parte e vai
encarar Deus, onde é julgada baseada nas ações da pessoa em vida. Se a pessoa
foi virtuosa, a alma é permitida a entrar no Céu por uma eternidade de
recompensas; se a pessoa foi maligna ou pecadora, sua alma descerá ao Inferno
para uma eternidade de punição. É ainda afirmado por estas religiões que ao
longo deste processo há uma continuidade da consciência, i.e., a alma
estará autoconsciente, sentirá que é a mesma pessoa que era quando estava
incorporada, e será de certa forma a mesma pessoa, de forma que a
recompensa ou o castigo será justificado.
A partir disto,
é relativamente fácil resolver o que a alma deve fazer. Se minha alma é a parte
de mim que me pensa como o meu "eu", que me torna a pessoa que sou, e que tem a
responsabilidade dos meus atos durante a vida, então deve ser responsável por
três coisas: identidade, personalidade e comportamento.
Identidade é consciência, autoconhecimento, meu reconhecimento de mim mesmo
como um ser distinto e autônomo, contínuo através do tempo. Personalidade é
composta dos traços de caráter que combinados me tornam um agente único.
Comportamento é a soma total dos atos que faço, sejam eles bons ou maus,
durante a minha vida. Até certo ponto, estas três categorias se misturam umas
às outras; identidade engloba personalidade, e personalidade determina o
comportamento - mas se a teologia dualista estiver correta, tem que ser afinal
a alma, e não o cérebro, a fonte de todas as três.
No entanto, como
um ateu, eu argumento que esta teologia dualista não está correta - que
essas três coisas não estão separadas do cérebro, não estão sequer ligadas ao
cérebro, mas são unificadas com o cérebro. As evidências mostram que
elas são completamente determinadas pela configuração física do cérebro, e que
uma mudança a esta configuração pode alterar ou eliminar qualquer uma delas.
Reusmindo, mostrarei que de acordo com o que a posição materialista prevê, cada
parte da mente é inteiramente dependente e controlada pelo cérebro. É isto o
que chamo de argumento da unidade mente-cérebro, e eu sinto que é um dos
argumentos mais fortes contra muitas variedades de teísmo.
Afinal de
contas, se existe uma alma imortal, por que ela seria subordinada à tão falha
Biologia? Se existe um deus que é bom e justo, e que nos pune ou nos recompensa
por nossas ações, ele não ajeitaria as coisas de forma que estas ações possam
ser ditadas ou alteradas por química cerebral, genes, ou outros fatores sobre
os quais não temos controle. Ao menos que ele seja um tirano injusto, ele
tornaria nossas ações o resultado da livre escolha do indivíduo. Isto é
consistente com a ideia da consciência surgir de uma alma espiritual, nada
sujeita às fraquezas do corpo físico. Infelizmente, ambas as ideias são
contraditas pelas evidências. As evidências são inegáveis onde nossa
identidade, nossa personalidade, e nosso comportamento são unificados com o
cérebro, e podem ser dramaticamente influenciados por causas além do nosso
controle, que afetam o cérebro. Abaixo seguem estudos de caso que demonstram
esse princípio em todas as três áreas.
(Nota: Exceto no
caso de Phineas Gage, discutido abaixo, as fontes que forneceram esses casos
tornaram fictícios os nomes e circunstâncias dos pacientes, por ser prática
padrão proteger seu anonimato. Em todos os casos, eu segui a pista destes
artigos originais usando estes detalhes. Os aspectos clínicos destes casos, no
entanto, são todos verdadeiros.)
Unidade de Identidade
Amnésia
Pura
Embora existam
distúrbios neurológicos muito mais incomuns que suportam o argumento da unidade
mente-cérebro, o primeiro que este ensaio irá examinar é relativamente bem
conhecido e direto: amnésia, a perda ou perturbação da memória. O tipo mais
conhecido de amnésia é a inabilidade de relembrar eventos passados devido a um
golpe na cabeça ou outro trauma cerebral. Esta condição é conhecida dos
neurologistas como amnésia retrógrada, e na maioria dos casos é
transiente, englobando apenas as memórias mais recentes e durando apenas um
breve período de tempo. No entanto, o tipo com que este ensaio irá lidar é
menos conhecido e mais severo em suas repercussões: a amnésia anterógrada,
a inabilidade de formar novas memórias.
Amnésia
anterógrada permanente - uma total inabilidade de formar novas memórias, sem
impactar a capacidade intelectual em qualquer outra forma - é também conhecida
como amnésia pura (Esta condição foi dramatizada no filme Amnésia,
de 2000). Resulta muitas vezes de abuso de álcool (uma condição chamada de
síndrome de Korsakoff), mas também pode ter outras causas. O caso mais famoso
já registrado é o de um homem identificado apenas como H.M., que viveu na
metade do século vinte. Após uma pancada na cabeça na infância, H.M. começou a
sofrer de epilepsia severa, com ataques frequentes originados nos lobos
temporais do seu cérebro. Os ataques não respondiam à medicação, e para
curá-lo, os cirurgiões decidiram remover as porções anteriores de ambos os seus
lobos temporais. Este procedimento realmente lhe trouxe alívio contra os
ataques, mas teve um efeito colateral não intencional. As porções removidas de
seu cérebro continham os dois lobos conhecidos como os hipocampos, os quais se
sabe hoje serem críticos para a formação de novas memórias.
Como resultado
da cirurgia, H.M. adquiriu um caso grave de amnésia anterógrada. Ainda que sua
inteligência ficou intacta e que ele tenha retido a maioria das memórias que
tinha antes da cirurgia, ele perdeu completamente a habilidade de formar novas.
Tão logo ele deixava de prestar atenção a algo, esquecia-se completamente de
tê-lo feito um dia. Ele não sabia em que data foi, não sabia nada dos eventos
atuais, e era incapaz de lembrar conversas minutos depois de encerradas. Drs.
Brenda Miller e Suzanne Corkin o estudaram por anos, mas ele nunca as
reconhecia ou se relacionava com elas; elas tinham que se reapresentar toda vez
que o encontravam (Heilman 2002, p.
149-150). (Para um tocante registro da perda de H.M., veja "O Dia em que Seu
Mundo Parou.".)
A memória é uma
parte tão natural e integral do nosso funcionamento diário que chega a ser
difícil imaginar como deve ser uma existência sem ela. Da mesma forma, é quase
impossível passar com palavras a natureza trágica e terrível desta condição e a
importância do que H.M. e pessoas como ele perderam. Outro estudo de caso, no
entanto, pode explicar melhor este ponto.
Em 1985, um
músico profissional chamado Clive Wearing adoeceu de um caso severo de
encefalite - uma infecção viral que atacou seu cérebro, produzindo inflamação e
um substancial dano cerebral. Com a ajuda da medicina moderna, ele sobreviveu e
se recuperou, mas logo se tornou aparente que ele não sobreviveu sem sequelas.
Como H.M., seus hipocampos foram destruídos, deixando-o com um caso permanente
de amnésia anterógrada total.
Superficialmente,
Wearing parece intacto. Suas emoções estão intactas, assim como suas faculdades
intelectuais e racionais, e suas habilidades musicais não foram afetadas. Ele
ainda reconhece sua esposa e a cumprimenta com felicidade e afeição quando a
vê, e ele ainda sabe tocar o piano ou o cravo com toda a técnica que tinha
antes da doença. Mas algo sobre ele está profunda e fundamentalmente errado. A
sua amnésia é tão densa que ele não pode se lembrar de literalmente nada que
tenha acontecido alguns minutos antes, e como resultado, ele continuamente
acredita que apenas acabou de recuperar a consciência. Ele preenche seu diário
com páginas e páginas do mesmo registro, repetido ad infinitum: "Agora eu estou
completamente desperto, pela primeira vez em anos" (Time-Life 1991, p.
85). Ele não reconhece nem se lembra de ter registrado nada antes, nega ser o
autor dos registros se perguntado, e rapidamente se irrita se lhe é apontado
que eles tem a sua letra. Da mesma forma, toda vez que a esposa de Wearing,
Deborah, o visita, ele imediatamente esquece a visita tão logo ela deixa o
recinto. Quando ela retorna, mesmo que tenha saído por apenas alguns minutos,
ele a cumprimenta com alegria e afeição, declarando que não a tem visto por
meses e perguntando por quanto tempo ele esteve inconsciente (Baddeley 1990, p.
5).
O dano cerebral
de Wearing o deixou completamente incapaz de aprender quaisquer novos fatos.
Quando são feitas tentativas de lhe ensinar qualquer coisa, ele facilmente se
torna frustrado e irritado, e é claro, dentro de minutos ele esqueceu
totalmente da experiência. Ele poderia ler (e lê) o mesmo livro ou assistir o
mesmo programa de TV várias vezes, e a cada vez fica igualmente surpreso e
encantado com o desenlace. Sua luta contra a doença destruiu também algumas de
suas memórias do passado: ele se lembra de eventos de sua vida apenas como
rascunhos vagos, e ele não sabe mais quem é a Rainha da Inglaterra, ou quem
escreveu a peça Romeu e Julieta (ibid.)
Wearing, é
claro, vive completamente indefeso na vida cotidiana e requer cuidado
constante. Mas há outra implicação de sua condição que é, dependendo de como
você enxerga, ou uma pequena misericórdia ou a mais cruel das ironias. A
implicação é esta: Clive Wearing não está a par, e não pode estar, de que há
algo errado com ele. Ele não pode aprender a natureza de sua condição, não mais
do que pode aprender qualquer outra informação. Se lhe fosse contado o que lhe
acontecera, ele iria sem dúvida sentir todas as sensações de choque e desânimo
que qualquer uum sentiria, e logo então iria esquecê-las completamente momentos
depois. Sem memória, ele está preso em um presente eterno, sem fim, sem passado
nem futuro. Salvo por algum avanço radical que tornaria possível recuperar seu
cérebro danificado, ele viverá assim até o dia em que morrer.
Ainda que a
habilidade de Clive Wearing de formar novas memórias esteja irreparavelmente
destruída, ele consegue se lembrar, ao menos em linhas gerais, dos eventos de
sua vida. O que não é o caso de outro paciente com uma amnésia ainda mais
severa, um paciente estudado por Antonio Damasio e colegas. Este paciente, que
sofreu sequelas nos hipocampos e os lobos temporais (entendidos como
importantes para guardar memórias), sofre de amnésia anterógrada total e retrógrada
quase total: ele não pode formar novas memórias nem relembrar as antigas. Ele
está preso num presente permanente, um vazio de consciência sem memória.
"De fato, ele
não tem senso de tempo algum. Ele não pode nos dizer a data de hoje, e quando
pedimos que adivinhe, suas respostas são loucas - tão disparatadas quando 1942
e 2013... Este paciente não consegue dizer sua idade, tampouco. Ele pode
adivinhar, mas seus chutes tendem a estar errados. Duas das poucas coisas
específicas que ele sabe ao certo são que ele é casado e que é pai de dois
filhos. Mas quando ele se casou? Não sabe dizer. Quando os filhos nasceram? Ele
não sabe. Ele não consegue se colocar na linha de tempo de sua vida familiar."
(Damasio 2002, p.
69-71)
Como o Dr.
Damasio nos conta, a esposa do paciente se divorciou dele há 20 anos, e seus
filhos há muito já cresceram e se casaram. Este homem ainda possui uma alma? Em
que sentido ele está consciente? Ele está à deriva num mundo de escuridão, um
vazio sem passado ou futuro, meramente um presente sempre em movimento que
continuamente escapa de vista.
Mais um caso de
estudo irá reforçar o ponto de o quanto esta condição é devastadora, como ela
priva uma pessoa completamente de algum aspecto fundamental de sua humanidade.
O hipocampo não
é a única estrutura cerebral que parece ser vital para assentar novas memórias.
É parte de um circuito no cérebro envolvendo várias regiões distintas, todas as
quais parecem ser igualmente importantes para esta tarefa. Uma dessas regiões,
que se conecta diretamente ao hipocampo, é chamada de fórnix, e o Dr. Kenneth
Heilman nos conta sobre uma paciente chamada Flora Pape cujos fórnixes esquerdo
e direito tiveram de ser extirpados para salvá-la de um tumor cerebral que lhe
ameaçava a vida. A sra. Pape vivia no leste de Kentucky toda a sua vida, até
que ela e seu marido se mudaram para Jacksonville, Florida, dois anos antes de
sua cirurgia. Na época de sua cirurgia, ela tinha dois filhos na casa dos 20
anos, ambos ainda vivendo em Kentucky.
Quando ela
recebeu alta do hospital, seu marido lhe levou de Gainesville para sua casa em
Jacksonville. Após deixar Gainesville, seu marido percebeu que ela olhava pela
janela e dizia "Minha nossa!". Ele a perguntou o que a preocupava e ela disse,
"O que aconteceu com as montanhas?"
Ele perguntou, "Que montanhas?"
Ela respondeu, "Você sabe, as montanhas."
Ele disse "Não há montanhas aqui."
Ela respondeu "Sem montanhas no Kentucky. Devemos estar na parte oeste do
estado. O que estamos fazendo aqui?"
O sr. Pape soube pelo médico que a cirurgia poderia piorar a memória dela, mas
ainda assim ficou surpreso. "Querida, não estamos no Kentucky. Estamos na
Flórida."
Ela perguntou, "Por que estamos na Flórida?"
Ele lhe contou que se mudaram para Jacksonville uns 2 anos atrás. Ela disse,
"Nos mudamos para Jacksonville? Por quê?" Ele lhe disse que a empresa tivera
lhe pedido pra se transferir. Ela perguntou, "Para onde estamos indo agora?"
"De volta para Jacksonville de Gainesville. Você fez uma cirurgia no cérebro.
Era um tumor. Os médicos acham que tiraram tudo. Você está tendo alguns
problemas de memória, mas os cirurgiões esperam que melhore com o tempo."
Então ela perguntou, "Quem está cuidando dos meninos?"
"Ninguém", ele respondeu. "Eles estão adultos e vivem no Kentucky."
"Que quer dizer, adultos? Ainda são adolescentes."
"Não, não são. Já passaram dos 20. Eles vêm esse fim de semana para ver você."
Ela parou de fazer perguntas por alguns minutos e olhou pela janela do carro.
Então ela se virou para o marido e perguntou, "Onde estão todas as montanhas?"
(Heilman 2002, p.
151-152)
Como H.M., Clive
Wearing e o paciente do Dr. Damasio, o distúrbio de memória da sra. Pape parece
ser permanente, e nenhum tratamento conhecido da ciência médica pode curá-lo. A
pergunta agora precisa ser feita: de acordo com as crenças dualistas, o que
aconteceu com essas pessoas? Cadê suas almas?
Se
algum deles não era religioso antes do surgimento de suas condições (não
consegui achar informações sobre se eram ou não), eles jamais serão agora.
Qualquer pregador que tentar convertê-los tem, no máximo, alguns minutos para
se apresentar, fazer o contato com a pessoa, ganhar sua confiança, explicar os
princípios da religião que está oferecendo, e convencê-los a adotá-la. Após
isso, eles se esquecerão de tudo e ele terá que começar tudo de novo. E se a
religião requer qualquer tipo de ritual ou comportamento que se repita, isso
está fora de questão - alguns minutos após sua conversa, eles terão esquecido
completamente de que ela aconteceu. Deus os condenará por isso? Assumindo que
estas pessoas não eram religiosas, estão agora condenadas ao Inferno porque
suas almas estão presas num loop eterno de química cerebral?
Indo direto ao
ponto, como essa condição é compatível com algo como a alma em primeiro lugar?
Como um pesquisador disse, "as memórias de uma pessoa definem o seu eu" (Persinger 1987, p.
53). Sem memória, a identidade de uma pessoa fica altera de forma irrevogável.
Os efeitos desta condição são consistentes com a predição materialista de que a
mente está unificada com o cérebro, mas parece consideravelmente mais difícil
de se encaixar com o dualismo.
Desconexão
Calosa
Nossa
consciência é normalmente contínua em dois pontos: é contínua no espaço (existe
exatamente uma consciência em cada corpo) e no tempo (cada corpo tem exatamente
uma consciência por vida). Isso é o que devíamos esperar se a alma existisse.
Afinal, não poderíamos ser julgados de forma justa pelas ações do nosso corpo
se fôssemos apenas uma de muitas presenças habitando-o e lutando por seu
controle, nem poderia ser uma pessoa idosa tida como responsável pelos pecados
de sua juventude, ou vice-versa, se a consciência que possuímos por toda nossa
vida não é a "mesma" consciência a cada ponto em nossa vida.
No entanto, a
condição chamada de amnésia pura prova que é possível que um dano cerebral crie
uma consciência que não é contínua no tempo. Que tal uma consciência que não é
contínua no espaço? Pode um distúrbio cerebral produzir múltiplas consciências
dentro de um único corpo?
Para os
propósitos deste ensaio, transtorno de personalidade múltipla (ou transtorno de
identidade dissociativa, como a American Psychiatric Association o chama) não
será considerado. É ainda uma questão de considerável controvérsia se este
transtorno sequer existe (ver Piper 1998) e
ainda que exista, pode ser puramente de natureza psicológica (Carroll 2002). Para
o argumento da unidade mente-cérebro, somente condições definidas e causadas
por dano neurológico físico serão vistos.
Acontece que
existe uma condição assim - não tão bem conhecida como o transtorno de
personalidade múltipla, mas é ainda mais revelador da forma que nosso cérebro,
e portanto nossa consciência, é organizada. Esta síndrome é geralmente
conhecida como desconexão calosa.
O cérebro humano
é dividido em dois hemisférios, o esquerdo e o direito. Estes hemisférios são
imagens espelhadas um do outro, e realizam muitas das mesmas funções. Por
exemplo, cada hemisfério recebe entrada sensorial para, e controla movimentos
de um lado do corpo. No entanto, há também certa especialização. Por exemplo,
na maioria das pessoas, a linguagem é controlada inteiramente pelo hemisfério
esquerdo. Para que possam trocar informações um com o outro, os dois
hemisférios são conectados por um feixe de fibras nervosas chamada de corpo
caloso.
No entanto, em
algumas pessoas, o corpo caloso está danificado ou removido. Algumas vezes isto
ocorre acidentalmente, como resultado de danos como um derrame; em outras é
feito deliberadamente, como resultado de cirurgia. A razão mais comum para tal
procedimento é tratar epilepsia severa: cortar o corpo caloso impede que
ataques - tempestades de atividade neural descoordenada - que começam num lado
do cérebro se espalhem para o outro, e assim garante ao paciente certo alívio.
No entanto,
fazê-lo tem um estranho efeito colateral que fornece uma compreensão da
natureza da consciência. Como dito antes, cada hemisfério recebe entrada
sensorial de um lado do corpo apenas. (Devido a um capricho da evolução, nossos
cérebros têm suas conexões cruzadas - o hemisfério esquerdo controla o lado
direito do corpo, e vice-versa.) No entanto, quando percebemos algo do lado
esquerdo do corpo, essa informação sensorial normalmente viaja para o
hemisfério direito e então através do corpo caloso para a esquerda, que poderá
verbalizar e descrever o que foi percebido. Mas o que acontece se essa conexão
é removida?
Estudos têm
descoberto repetidamente que, se um paciente com desconexão calosa tem seus
olhos vendados e tiver um objeto posto em sua mão esquerda, eles não
conseguirão identificá-lo ou descrevê-lo (Heilman 2002, p.
128). A informação sensorial recebida pelo hemisfério direito não pode ser
transferida para os sistemas de linguagem do esquerdo. No entanto, como o
hemisfério direito controla movimentos do lado esquerdo do corpo, incluindo a
mão esquerda, a pessoa conseguirá usar essa mão para desenhar o objeto,
ou escolhê-lo entre um grupo de objetos similares, se lhe pedirem (Newberg e
D'Aquili 2001, p. 23; Feinberg 2001, p.
92) - mesmo enquanto não conseguirem explicar o que estão fazendo ou por quê.
Mas existem sintomas ainda mais importantes de desconexão calosa.
Uma coisa que o
hemisfério direito controla é certos tipos de emoção. Se uma imagem com fortes
associações emocionais é projetada apenas para o campo visual esquerdo, para
que o sinal visual só possa viajar para o hemisfério direito, uma pessoa com
desconexão calosa irá experimentar a resposta emocional apropriada. Mas se lhe
perguntarem por que elas estão sentindo isso, a pessoa não vai ficar sem
ter o que dizer. Em vez disso, surpreendentemente, elas darão uma razão que é
lógica, mas completamente sem relação alguma à verdadeira causa. Como Andrew Newberg
e Eugene D'Aquili escreveram,
"Um paciente com
cérebro separado ao ver uma foto de Hitler somente no hemisfério direito, por
exemplo, pode exibir expressões faciais indicando raiva ou desgosto. Mas quando
lhe pedem pra explicar essas emoções, o paciente irá muitas vezes inventar uma
resposta, tipo 'Eu estava pensando numa ocasião em que alguém me deixou
irritado'" (Newberg e
D'Aquili 2001, p. 23)
Kenneth
Heilman traz outro exemplo mais concreto, escrevendo sobre a pesquisa do Dr. Michael
Gazzaniga e seus colegas. Em um experimento, eles mostraram imagens sexualmente
sugestivas para uma mulher com desconexão calosa, exibindo-as apenas na metade
esquerda de uma tela de forma que somente seu hemisfério direito as perceberia.
A mulher dava risadinhas e se enrubecia, mas quando lhe perguntavam por que,
ela respondia que esta pensando em algo constrangedor. (Heilman 2002, p.
129).
Estas pessoas
estão mentindo? Em certo sentido, talvez; mas parece claro que não há intenção
consciente de enganar. Em vez disso, pesquisadores concluíram, o que está
havendo é que o hemisfério direito, ao ver uma imagem com fortes conotações
emocionais, gera uma resposta apropriada. No entanto, devido à desconexão
calosa, não pode transmitir os dados sensoriais associados para o hemisfério
esquerdo e seus centros de linguagem. O hemisfério esquerdo percebe uma mudança
no estado corporal, mas não sabe por que - e então ele "preenche" os detalhes
que faltam, fabricando uma razão lógica para a reação emocional. Isto acontece
num nível subconsciente, de forma que a pessoa genuinamente acredita nas
explicações verbais que eles fornecem. Na linguagem da psicologia, esse
processo de preenchimento, de invenção inconsciente é chamado de confabulação.
Mas há uma
implicação significativa a se extrair desses experimentos. Claramente, os
hemisférios direitos dessas pessoas estão a par de seu ambiente, já que podem
gerar a resposta emocional apropriada para um estímulo. Mas com a mesma
clareza, seus hemisférios esquerdos não sabem de algumas coisas que seus
hemisférios direitos sabem. Resumindo, as desconexões calosas dessas pessoas
produziram duas consciências separadas - duas esferas distintas de sensibilização
- em suas mentes.
Há uma
manifestação ainda mais impressionante de desconexão calosa que suporta esta
conclusão. Ainda que o hemisfério direito não tenha acesso aos centros de
linguagem e, portanto não pode falar, ele pode pronunciar palavras arranjando
blocos de letras pelo tato. Em um estudo de pacientes com separação cerebral,
perguntaram a um paciente qual era sua profissão ideal. Verbalmente (i.e.,
usando seu hemisfério esquerdo), o paciente respondeu que ele gostaria de ser
um desenhista. No entanto, com sua mão esquerda (i.e., usando o hemisfério
direito), ele formou as palavras "corrida de automóveis" (Hock 2002, p.
8).
Andrew Newberg
and Eugene D'Aquili concluem desses resultados:
"A pesquisa
mostra que em casos de separação cerebral, o cérebro gera o que parecem ser
duas consciências separadas. Pesquisas em pacientes com cérebro separado
levaram o cientista cerebral e ganhador do Nobel Roger Sperry a concluir, 'Tudo
que temos visto indica que a cirurgia deixou essas pessoas com duas mentes
separadas, ou seja, duas esferas separadas de consciência. O que é
experimentado no hemisfério direito parece se localizar totalmente fora do
domínio do esquerdo'" Newberg e
D'Aquili 2001, p. 22-23)
Um ateu pode
muito bem perguntar como esta evidência pode ser reconciliada com o dualismo.
Claramente nestes pacientes com separação cerebral, as diferentes metades de
seus cérebros têm acesso a informações diferentes e podem até emitir opiniões
diferentes. Mas sob a hipótese da alma, isto é muito mais difícil de explicar.
Presume-se que a alma não tem seus próprios caminhos internos de compartilhar
informação, que podem ser danificados ou desconectados. Se uma parte da alma
sabe o que está acontecendo, ela como um todo deveria saber. Se uma parte da
alma acredita numa certa coisa, toda ela deveria acreditar. O próprio Descartes
escreveu que a alma era indivisível por natureza, que não faria sentido falar
de "meia-alma" (Feinberg 2001, p.
107). Mas os fatos mostram que este não é o caso.
Síndrome
da Mão Alienígena
As duas
condições acima derrubam o senso comum de que cada humano possui uma identidade
simples e unificada. Amnésia pura oblitera nosso senso de nós mesmos como
contínuos através do tempo, cortando uma pessoa em vários "eus" evanescentes, e
os efeitos da desconexão calosa sugerem que há múltiplas esferas de consciência
vagando em nossas mentes, que normalmente não percebemos porque elas
normalmente se comunicam sem problemas entre si. Alguns experimentos parecem
até mostrar que essas esferas podem ter desejos diferentes entre si. No
entanto, há outra síndrome que demonstra de uma forma bastante bizarra que não
só essas esferas de consciência existem, mas que o conflito envolve muito mais
do que mera percepção sensorial. Estas esferas discretas dentro do nosso
cérebro podem ter emoções e pensamentos diferentes - o que é provado
pela extraordinária condição chamada de síndrome da mão alienígena.
Na clássica
comédia de humor negro de Stanley Kubric, Dr. Strangelove, o
personagem-título é atingido por um distúrbio bizarro - uma de suas mãos não o
obedece. Ela tenta fazer saudações nazistas em momentos inapropriados, até
tenta estrangulá-lo em uma ocasião, e ele é muitas vezes forçado a usar a sua
outra mão para impedi-la. Diz-se que a verdade é às vezes mais estranha que a
ficção, mas neste caso, a verdade é igualmente tão estranha quanto, porque a
doença do Dr. Strangelove realmente existe.
"Há mais de
cinquenta anos atrás uma mulher de meia idade entrou na clínica de Kurt
Goldstein, um neurologista de fama mundial com ótima técnica de diagnóstico. A
mulher parecia normal e conversava fluentemente; de fato, nada estava
obviamente errado nela. Mas ela tinha uma extraordinária reclamação - de vez em
quando sua mão esquerda voa até sua garganta e tenta estrangulá-la. Ela várias
vezes teve de usar a mão direita para lutar com a esquerda... algumas vezes até
teve que sentar sobre a mão assassina, tamanha a vontade que tinha de acabar
com sua vida." (Ramachandran
1998, p. 12)
A explicação
óbvia era de que ela era mentalmente perturbada e estava fazendo isso consigo
mesma, e realmente este foi o diagnóstico de vários médicos que a examinaram
antes. Mas o Dr. Goldstein não encontrou sinais de histeria ou outros
distúrbios mentais - parecia mesmo que sua mão esquerda tinha vontade própria -
e então ele propôs uma explicação radicalmente diferente. Ele teorizou que o
hemisfério direito da mulher (que controla o lado esquerdo do corpo, incluindo
a mão esquerda) tinha "latentes tendências suicidas" (ibid.). Numa pessoa
normal, o hemisfério esquerdo, mais racional, as inibiria e impediria de
virarem ações; mas se esta mulher sofrera dano ao seu corpo caloso, essas
mensagens inibitórias não poderiam mais ser transmitidas para a outra metade do
seu cérebro, e o hemisfério direito tentaria agir sobre seus desejos
irracionais autodestrutivos.
Logo após
visitar o Dr. Goldstein, a mulher morreu (não, não foi por se estrangular). Uma
autópsia confirmou as suspeitas do doutor: ela sofrera um derrame que
danificara seu corpo caloso e removeu a conexão entre os hemisférios, removendo
o freio que seu hemisfério esquerdo pusera sobre as ações do direito.
Hoje, dados
adicionais têm suportado a explicação do Dr. Goldstein. É agora sabido que o
hemisfério direito é principalmente responsável por produzir e mediar emoções
negativas, como raiva e tristeza; pacientes com dano no hemisfério direito
muitas vezes perdem a capacidade de sentir essas emoções e se tornam
inapropriadamente alegres e eufóricos (isto será discutido em mais detalhes
abaixo). Por mais assustador que pareça, a desconexão calosa da mulher revelara
que havia duas esferas separadas de consciência dentro de sua mente que sentiam
e desejavam coisas completamente diferentes.
Mais uma questão
surge: Se metade do cérebro desta mulher se tornara suicida, quem ou o quê
restou? Qual foi a parte dela que não queria cometer suicídio e combatia
os impulsos de sua mão "possuída"?
A resposta, é claro,
é o seu hemisfério esquerdo racional, desconectado do direito e, portanto, não
afetado pelas emoções negativas que ele produzia. Como o hemisfério esquerdo
controla a linguagem, ele - e ela - não conseguia expressar choque e horror
sobre o comportamento irracional do outro lado de seu corpo. Mas o que isto
implica para as pessoas normais é que nós - a parte que pensamos como "nós
mesmos" - é somente o hemisfério esquerdo. Essa é a parte que cria uma
narrativa para explicar nossas ações e se comunica com o resto do mundo. Mas
nesse tempo todo, há outra consciência, dentro de nossas cabeças - o silencioso
hemisfério direito. Incapaz de controlar a linguagem, não pode se fazer
perceber diretamente, e em qualquer caso se comunica com o esquerdo tão
facilmente que não o percebemos como uma entidade separada. Mas quando o dando
caloso traz essa presença vigilante e muda para a superfície, os resultados
podem ser avassaladores.
Outros casos de
síndrome da mão alienígena suportam esta explicação. Enquanto esta síndrome
pode acontecer em qualquer mão, dano ao corpo caloso produz quase que
exclusivamente mãos alienígenas canhotas. (Dano aos lobos frontais do cérebro,
que serão discutidos em mais detalhes depois, podem produzir ou uma mão
alienígena esquerda ou direita.) Além disso, exatamente como se esperaria se a
SMA resultasse da desinibição de um hemisfério direito mais emocionalmente
volátil, mãos alienígenas raramente são úteis ou agradáveis. Em vez disso, a
maioria faz ações que variam do meramente travesso para o totalmente agressivo,
até as mais assustadoras. Frequentemente elas fazem o oposto do que a mão
conscientemente controlada pretende. Há casos registrados de mãos alienígenas
que respondem o telefone e então se recusam a atender o contato, que derrubam
bebidas, que atiram violentamente objetos aleatórios. Algumas vezes um paciente
pode abrir uma gaveta com sua mão boa apenas para que a sua mão ruim a feche;
às vezes ele pode abotoar uma camisa com uma mão enquanto a outra segue atrás,
desabotoando-a. Em um caso registrado, a mão alienígena tentou rasgar dinheiro (Feinberg 2001, p.
94-97).
O mais
perturbador de tudo é que algumas mãos alienígenas são genuinamente violentas. Estrangulamentos
como os acima realmente ocorrem. Em outro caso, o Dr. Michael Gazzaniga descreve
um paciente cuja mão alienígena agarrou sua esposa e a sacudiu violentamente,
enquanto sua direita tentou ajudá-la a por a esquerda sob controle. Em outra
ocasião, o doutor estava visitando o mesmo paciente, jogando ferraduras com ele
no quintal, quando a mão esquerda do paciente apanhou um machado encostado ao
lado da casa.
"Por ter sido
inteiramente provável que o hemisfério direito mais agressivo pudesse estar no
controle, eu discretamente saí de cena - não querendo ser a vítima para o caso
de teste de qual meio-cérebro a sociedade pune ou executa" (Feinberg 2001, p.
98).
Como o bom doutor
astutamente percebeu, haveria um problema real de quem era responsável se a mão
alienígena de seu paciente conseguisse realizar suas intenções aparentemente
malignas. Mas esse problema não seria limitado meramente a agentes mortais da
justiça. Como Deus julgaria um caso assim?
O dualista
precisa responder à pergunta de como tudo isto é compatível com a existência da
alma. Nossas almas residem apenas em nossos hemisférios esquerdos? Então quem
ou o quê vive no direito? Ou os dualistas afirmariam que a alma simples e
unificada pode de alguma forma se tornar fraturada, separada em duas
consciências distintas, por dano ao cérebro físico?
Paralisia
e Negação
Imagine que você
é um médico, indo pra lá e pra cá numa ala de neurologia de um hospital. Você
entra em um dos quartos para conferir um paciente idoso que recentemente sofreu
um grave AVC isquêmico no hemisfério direito de seu cérebro. Embora tenha
sobrevivido com a ajuda de anticoagulantes, já estava tarde demais para impedir
o estrago. Os centros motores de seu hemisfério direito foram destruídos, e o
paciente está com a metade esquerda de seu corpo totalmente paralisada. Ele
jamais voltará a ficar de pé ou andar, e ficará confinado a uma cama ou uma
cadeira de rodas pelo resto de sua vida. Mas, mesmo assim, ele parece estar de
bom humor. Ele está aceitando a notícia extremamente bem - talvez até bem demais
- reagindo a ela com uma leveza incongruente.
Você cumprimenta
o paciente e lhe dá bom dia. "Como você se sente?", você pergunta.
"Bem", ele diz
animadamente.
"Você sabe por que
está no hospital?", você pergunta.
O paciente
admite ter tido um ataque. "Foi isso o que os médicos me disseram, afinal.
Fizeram todos os exames e raios-x. Acho que não tenho razão pra duvidar deles."
"Mas você se
sente melhor agora?"
"Sim, bem", ele
concorda.
Algo não está
certo aqui; uma suspeita começa a crescer em sua mente. Pode ser que o homem se
irrite, mas você tem que saber, então pergunta, "Consegue caminhar?"
"É claro que
posso", diz o paciente com um leve tom de petulância, como se não entendesse
por que você está fazendo uma pergunta tão boba.
"E suas mãos?
Consegue usá-las?"
"É claro."
"Ambas têm a
mesma força?"
"Sim, é claro
que têm", ele diz friamente. Este homem não movia sua mão esquerda nem ficou de
pé desde o seu ataque; ele tem ficado numa cama ou cadeira de rodas desde que
chegara ao hospital.
Ainda que essa
terrível suspeita esteja essencialmente confirmada, você decide forçar as
coisas só mais um pouquinho. "Poderia tocar o seu nariz com sua mão direita
para mim?", você pergunta.
Ele concorda e
assim o faz sem problemas.
"E quanto a sua
mão?" você então pergunta. "Pode tocar seu nariz com sua mão esquerda?"
"Claro que
posso". A mão esquerda paralisada não se mexe.
"Você o está
tocando agora?"
"Sim, é claro
que estou." Sua mão ainda não se mexera.
"Você consegue
de fato se ver tocando seu nariz com a mão esquerda?", você pergunta.
"Mas é claro que
consigo", ele diz irritado. "Está bem na frente do meu rosto."
Você decide
perguntar só mais uma coisa. "Pode bater palmas para mim, por favor?"
O paciente te
olha um tanto intrigado, mas de forma resignada levanta sua mão direita e a
agita na frente dele, como se estivesse batendo palmas com uma mão esquerda
imaginária. Sua mão esquerda real ficou onde estava, completamente paralisada.
(adaptado de Ramachandran
1998, p. 128-129, onde uma conversa praticamente idêntica
ocorre)*
Poucos
distúrbios neurológicos nos forçam a confrontar a fragilidade do senso de si
mais do que a condição chamada anosognosia. A palavra em grego basicamente
significa "desconhecimento da doença", e é exatamente o que esta síndrome é:
uma pessoa que sofreu algum dano grave e incapacitante mas que permanece
inabalavelmente alheio - e negando veementemente quando perguntado - ao fato de
que há algo errado com eles. A anosognosia real não é uma simples confusão; o
paciente literalmente não pode ser convencido da realidade de sua condição (Feinberg 2001, p.
21). Apesar de a anosognosia estar mais comumente associada à paralisia parcial
após um ataque, tal como no exemplo acima, ela ocorre em outras condições
também. Alguns pacientes que sofrem de tumores cerebrais malignos e outras condições
fatais irão negar veementemente o diagnóstico de seus médicos, insistindo que
se sentem bem (Ramachandran
1998, p. 143). Há até um exemplo documentado de um
paciente que era incapaz de reconhecer que estava cego (Heilman 2002, p.
133).
O que causa a
anosognosia? Os advogados do dualismo e outros podem alegar que isto é
puramente psicológico, um mecanismo de defesa freudiano utilizado por pessoas
encarando uma verdade terrível demais para aceitar. Mas outros pesam contra
essa explicação.
Primeiro,
vítimas de ataque com anosognosia podem negar sua paralisia, mas normalmente
admitem livremente haver outras coisas erradas com eles. Como no exemplo acima,
eles quase nunca negam que de fato tiveram um ataque. Dr. Vilayanur
Ramachandran nos conta de uma paciente paralisada e em negação, a quem ele
ofereceu um doce caso ela conseguisse amarrar seus cadarços, apenas para tomar
um sermão dela. "Você sabe que eu sou diabética, doutor. Não posso comer doce!"
(Ramachandran
1998, p. 142)
Mas muito mais
importante, e muito mais destrutiva para a teoria freudiana, é que a negação é
quase que exclusivamente associada à paralisia do lado esquerdo - em
outras palavras, com danos ao hemisfério direito (Feinberg 2001, p.
51). Pacientes com danos ao hemisfério esquerdo e paralisia do lado direito
quase nunca passam por negação, apesar do fato de que supostamente eles teriam
tanta necessidade psicológica quanto. Esta forte associação entre negação e
dano a uma região específica do cérebro sugere que algo nessa região está
fazendo alguma coisa crítica para atualizar a imagem mental do próprio corpo de
alguém.
No entanto,
existe uma terceira evidência, muito poderosa - uma que decisivamente descarta
as teorias freudiana e dualista, e mostra claramente como este bizarro
distúrbio, alem do senso de si em geral, surge de e está indissociavelmente
unificado ao funcionamento de nossos cérebros físicos.
Em 1987, um
neurologista italiano chamado Eduardo Bisiach, ao realizar exames numa paciente
em negação, borrifou água fria em sua orelha esquerda, um teste da função dos
nervos que controlam o equilíbrio. Mas o experimento teve um surpreendente
efeito colateral: logo após o exame, quando perguntada se estava paralisada, a
paciente calmamente respondia que não podia usar o braço esquerdo! A mera
introdução de água fria em sua orelha efetuou uma cura completa, ainda que
temporária, de sua negação.
O Dr. Ramachandran
realizou este experimento em outra paciente com a mesma condição, e obteve o
mesmo espantoso resultado. Ele inseriu água fria nas orelhas de uma paciente
com paralisia do lado esquerdo que negava seriamente sua paralisia e insistia
que seus braços eram igualmente fortes. Irrigar o canal auricular direito não
teve efeito algum; ela continuava a insistir que estava bem. Mas quando ele
tentou irrigar seu canal esquerdo:
Após [inserir a
água], perguntei de novo, "Como está se sentindo?"
"Minha orelha está fria."
"E quanto aos seus braços? Consegue usar os seus braços?"
"Não", ela respondeu, "meu braço esquerdo está paralisado."
Aquela
foi a primeira vez que ela usou aquela palavra em três semanas desde o seu
ataque.
"Sra.
Macken, há quanto tempo você está paralisada?"
Ela disse, "Oh, o tempo todo, esses dias todos."
(Ramachandran
1998, p. 145-146)
Doze
horas depois, um de seus alunos repetiu a pergunta:
"Você
se lembra do Dr. Ramachandran?"
"Oh sim, era aquele doutor indiano."
"E o que ele fez?"
"Ele pegou um pouco de água gelada e colocou no meu ouvido, e doeu."
"E o que ele lhe perguntou?"
"Me perguntou se eu podia usar os meus dois braços."
"E o que você disse a ele?"
"Eu disse que estava bem."
(p. 146)
Mas este enigma
se torna ainda mais complexo. Às vezes, negação não é permanente, mas sim se
resolve espontaneamente à medida que o paciente se recupera. Mas o que acontece
quando se pergunta a um paciente assim sobre suas negações anteriores? Dr.
Ramachandran perguntou a um:
"Você se lembra
quando lhe perguntei sobre os seus braços? O que você disse?"
"Te disse que meu braço esquerdo estava paralisado."
"Você se lembra que eu te visitei várias vezes? O que você dizia em todas elas?"
"Eu te dizia que meu braço esquerdo estava paralisado."
(Na verdade ela tivera me dito a cada vez que o braço dela estava bem.)
"...Pense com clareza. Você se lembra de ter me ditto que seu braço esquerdo
estava bem, que não estava paralisado?"
"Bem, doutor, se eu disse isso, então isto implica que eu estava mentindo. E eu
não sou mentirosa."
(p. 149-150)
Neste ponto
deveria estar claro que este distúrbio vai muito além de qualquer mecanismo de
defesa psicológico; vai além até mesmo de uma simples falha do cérebro em
atualizar a imagem corporal de si mesmo. Quando um paciente em negação entra em
remissão, é como se eles "reescrevessem seu roteiro" completamente para tornar
seu comportamento passado compatível com seu conhecimento atual de sua paralisia.
Quando a negação retorna, seu roteiro interno é novamente reescrito à luz de
sua crença renovada. É como se, como escreve o Dr. Ramachandran, "tivéssemos
criado dois seres humanos conscientes separados que eram mutuamente
amnésicos", uma "isolação parcial de uma personalidade da outra... ainda que
ocupem um único corpo" (p. 146-147, com ênfase acrescentada).
Então como pode
esta estranha condição - a divisão de uma pessoa em duas, uma a par do que
aconteceu a ela e a outra enganada, e cada uma desconhecida da outra - ser
explicada? Teorias freudianas, como já mostrado, não serão suficientes. Nem
pode o dualismo teísta ter esperanças de explicar isto adequadamente. Se a alma
guarda nossas memórias (um componente crucial da identidade e um requisito para
a continuidade da consciência - afinal, não devemos nos lembrar de nossas vidas
terrestres ao chegarmos ao além?), como pode algo tão mundano como um esguicho
de água fria no ouvido alterar radicalmente essas memórias? Mesmo que se algum
defeito corporal impede a informação sobre a paralisia de alcançar a alma - o
que é muito improvável, já que estas pessoas podem claramente ver os
seus membros não se mexerem - uma vez que ela tenha alcançado a alma,
como pode ela ter se perdido novamente tão rápido, tão logo passe o efeito do
tratamento com água fria? Ao contrário, somente através do materialismo e do
reconhecimento de que nossa mente está unificada com, e sob a mercê das falhas
do cérebro físico, é que este fenômeno pode ser explicado de forma
satisfatória.
E uma teoria
não-dualista do funcionamento da mente humana pode oferecer uma explicação assim.
Ao observar que a anosognosia resulta quase que exclusivamente de danos ao
hemisfério direito, Dr. Ramachandran tem proposto que as duas metades do nosso
cérebro servem a diferentes papeis no que diz respeito a nossas visões de
mundo. Sua hipótese é a de que o trabalho do hemisfério esquerdo é o de criar
uma perspectiva coerente: processar os dados que constantemente recebe dos
sentidos e integrá-los todos em uma visão de mundo consistente. Mas quando
dados inconsistentes chegam - informação que conflite com o que já sabemos ou
acreditamos - eles precisam ser tratados. Uma opção, é claro, é derrubar
completamente a estrutura existente de crença e recomeçar tudo do zero; mas se
fizéssemos isto para cada mínima discrepância que encontrássemos, seria
impossível de funcionarmos no mundo. Portanto, o hemisfério esquerdo funciona
como um preservador do status quo, defendendo o sistema de crenças de uma
pessoa ao descontar evidências contraditórias ou forçando-as para a plataforma
existente. Hipotetiza-se que o hemisfério direito, por contraste, seja um
"advogado do diabo", buscando problemas e inconsistências maiores no status quo
e forçando uma reavaliação de crenças pré-existentes se inconsistências
suficientes surgirem. (uma possível explicação para o porquê de o tratamento com
água fria funcionar é a de que pode estimular nervos ligados ao hemisfério
direito)
Enquanto isto
pode ser uma supersimplificação, esta hipótese não é insustentada. Em uma
experiência simples usando espelhos que criassem uma discrepância entre o que
um indivíduo de teste sentia o seu braço fazer e o que ele o via fazendo, uma
região do hemisfério direito próxima ao lobo parietal direito se excitou num
exame cerebral - independentemente de a discrepância ter acontecido com a mão
esquerda ou a direita (p. 142).
* Esta forma de
negação é mais grave. Nem todas as pessoas com a síndrome criam confabulações
tão gritantes; é mais comum que dêem desculpas ou racionalizações de por que
não caminharem ou por que seu braço paralisado não está se mexendo - eles podem
dizer que o membro está "com preguiça" ou "um pouco cansado" (Feinberg 2001, p.
21), ou que "dói mexer esse braço", ou "os médicos tem me examinado o dia todo
e estou cansado, então não quero movê-lo" (Ramachandran
1998, p.129-130). De maneira oposta, na outra ponta do
espectro, algumas pessoas em negação afirmam que o membro paralisado conectado
ao seu corpo na verdade pertenceria a outra pessoa, uma condição chamada de
somatoparafrenia (p. 131). (Pessoas assim podem dizer coisas como "é o braço do
meu irmão"). Em todos os casos, no entanto, essas pessoas não terão limites em
racionalizar qualquer evidência contrária ou apegar-se a qualquer explicação,
não importa o quão forçada, em vez de admitir o óbvio. A relevância em
potencial para a crença teísta é interessante. Será que alguns fundamentalistas
e membros de cultos possuem hemisférios direitos subdesenvolvidos? (voltar)
Síndrome
de Capgras
O distúrbio
chamado de síndrome de Capgras é "uma das mais raras e pitorescas síndromes da
neurologia" (Ramachandran
1998, p. 161). O paciente, que em qualquer outro
respeito é perfeitamente racional e lúcido, de repente começa a insistir que um
amigo próximo ou um ente querido - um pai, esposa, até um animal de estimação
em alguns casos - foi substituído por um impostor que se parece exatamente como
o indivíduo perdido. Enquanto essa condição possa ocorrer espontaneamente
naqueles com esquizofrenia ou doenças degenerativas como Alzheimer (Feinberg 2001, p.
33), é muitas vezes encontrada em pessoas que sobreviveram a algum tipo de
traumatismo craniano.
Como se explica
essa condição? A resposta está no sistema límbico, um conjunto de estruturas
nas profundezas do cérebro o qual é responsável pela ativação emocional. Quando
a informação vinda dos olhos chega até o cérebro, é transmitida para o caminho
de reconhecimento de objeto, nos lobos temporais, para determinar o que uma pessoa
está olhando - um rosto, uma casa, um animal - e essa informação é por sua vez
repassada para a amígdala, o portal para o sistema límbico, para determinar o
significado emocional do objeto. Se o objeto é o rosto de um ente querido, o
sistema límbico gera o "brilho" emotivo apropriado para nos avisar de que se
trata realmente daquela pessoa.
Mas e se algum
dano cerebral desconecta o caminho entre o sistema visual e a amígdala? Nesse
caso, uma pessoa ainda seria capaz de reconhecer rostos, mas não experimentaria
as emoções normalmente associadas a elas. Essencialmente, o cérebro diz para si
próprio algo como, "se esta é a minha mãe, por que sua presença não me faz sentir
que estou com a minha mãe?" (Ramachandran
1998, p. 162) - e a única forma que ele pode extrair
sentido desta discrepância é produzir a ilusão de Capgras, assumir que a pessoa
apenas lembra alguém importante para o visualizador.
Pode ser
desconcertante perceber que as emoções prestam um papel tão importante no
processo de julgamento. Pode-se muito bem perguntar, por que esta desconexão
produz uma ilusão tão grave? Mesmo que o paciente não possa emocionalmente se
sentir íntimo a outras pessoas, elas não podem ainda assim reconhecê-las, pelo
menos intelectualmente? E sob a doutrina da alma, uma consciência racional
imaterial não sujeita às falhas do cérebro, pode-se esperar que isso fosse o
caso. Mas o materialismo derruba o senso comum de um "homúnculo" - uma
pessoinha vivendo dentro do cérebro, recebendo seus inputs e dirigindo suas
ações como um controlador de tráfego aéreo. Nós somos os nossos
cérebros, e seus defeitos são defeitos em nossas mentes.
Mas o que a síndrome
de Capgras tem a ver com uma falha no senso de identidade? Acontece que essa
condição tem outros efeitos colaterais, muito mais surpreendentes.
O "brilho"
emocional produzido pelo sistema límbico faz mais do que fornecer
reconhecimento momento-a-momento de rostos significativos. Acontece que este
brilho é um componente crucial da formação e associação da memória de longo
prazo.
Por exemplo,
suponha que você vá até o armazém um dia e um amigo te apresenta a uma nova
pessoa - João. Você forma uma memória desse episódio e a enfia em seu cérebro.
Duas semanas se passam e você topa com o João na biblioteca. Ele lhe conta uma
história sobre seu amigo em comum, vocês dão boas risadas e seu cérebro arquiva
uma memória sobre este segundo episodio. Mais algumas semanas se passam e você
encontra o João novamente em seu escritório - ele é um pesquisador médico e
está usando um jaleco branco - mas você o reconhece instantaneamente de
encontros passados. Mais memórias do João são criadas durante esse tempo de
forma que agora você tem na sua mente uma "categoria" chamada João. Esse
retrato mental se torna progressivamente refinado e enriquecido a cada vez que
você encontra o João, auxiliado por um senso crescente de familiaridade que
cria um incentivo para ligar as imagens e os episódios. Eventualmente você
desenvolve um conceito robusto do João - ele conta ótimas histórias, trabalha
num laboratório, te faz rir, sabe um bocado sobre jardinagem, e assim por
diante. (Ramachandran
1998, p.169)
Mas como o
cérebro liga esses episódios disparatados entre si, reconhecendo que o João é a
mesma pessoa a cada vez? Como uma analogia, digamos que a memória do cérebro,
de forma abstrata, funciona como um sistema de gerenciamento de arquivos de um
computador. Toda vez que você encontra alguém, um novo "arquivo" de memória é
criado. Como o cérebro sabe que esses novos arquivos pertencem à mesma "pasta"
criada anteriormente junto com memórias anteriores da mesma pessoa?
A resposta está
no sistema límbico. O brilho emocional que gera aparentemente funciona como um
tipo de fibra percorrendo essas memórias separadas e as amarrando entre si,
avisando o cérebro de que pertencem todas à mesma "pasta". Mas e se esse brilho
estiver ausente? O cérebro não teria uma forma de associar novas memórias com
antigas, e ao encontrar uma pessoa, em vez de adicionar suas memórias do
encontro à "pasta" já existente, uma novinha em folha seria criada. Isto
levaria à insistência do paciente com Capgras de que as pessoas que encontraram
não são seus entes queridos, mas pessoas diferentes que apenas se parecem com
eles.
E agora, a
pergunta precisa ser feita: você se conta como um "ente querido" para
você mesmo? A imagem de seu próprio rosto evoca significância emocional dentro
do seu cérebro?
Dr. Ramachandran
encontrou a resposta a esta pergunta de forma inesperada enquanto examinava um
paciente de Capgras chamado Arthur:
"Eu estava
mostrando ao Arthur retratos de si próprio de um álbum de família e apontei
para um instantâneo dele tirado dois anos antes do acidente [que resultou nele
adquirindo a síndrome de Capgras].
'De quem é esta foto?', perguntei.
'Esse é um outro Arthur', respondeu. 'Ele é igualzinho a mim mas não sou eu.'.
Não conseguia acreditar no que ouvi. Arthur deve ter detectado a minha surpresa
já que ele então reforçou seu ponto dizendo, 'Está vendo? Ele tem um bigode. Eu
não.'" (p. 172)
Esta
ilusão não acontecia quando Arthur se olhada num espelho; apesar da sua condição,
ele parecia reconhecer que o rosto no espelho não poderia ser de ninguém mais
senão seu. Mas a tendência em se "duplicar" aparecia em outras ocasiões. Em um
momento, ele disse, "Sim, meus pais enviaram um cheque, mas mandaram prum outro
Arthur", e um dia ele chegou a perguntar para sua mãe, "Mãe, se o Arthur real
um dia retornar, você promete que ainda irá me tratar como um amigo e me amar?"
(IBID.)
Não
há uma explicação dualista da síndrome de Capgras que possa resolver isto. A
condição de Arthur e outros como ele nos mostra que o senso de si e de
identidade está unificada com o cérebro, e pode ser rompida por um dano ao
cérebro. Deixemos o Dr. Ramachandran resumir:
"Como
pode um ser humano são que é perfeitamente inteligente em outros aspectos vir a
se considerar como duas pessoas? Parece haver algo inerentemente contraditório
quanto a separar o Eu, o qual é por sua própria natureza unitário. Se eu começasse
a me considerar como varias pessoas, para qual delas eu faria planos Qual delas
é o eu 'real'?
Filósofos
têm discutido por séculos que, se há qualquer coisa sobre nossa existência que
esteja completamente além do questionamento, é o simples fato de que 'eu'
existo como um ser humano singular que existe no espaço e no tempo. Mas até
mesmo essa fundação axiomática básica da existência humana é posta em xeque por
Arthur." (p. 172-173)
Unidade
de Personalidade
O
Estranho Caso de Phineas Gage
A estranha história
de Phineas Gage é um dos casos clássicos da neurologia, e um dos primeiros que
levou os cientistas a suspeitarem de que pode haver regiões do cérebro
especificamente devotadas à personalidade e ao raciocínio. O terrível acidente
que este homem sofreu, ainda que trágico, também serviu para trazer luz ao
funcionamento interno da mente e revelar o quão frágil é a construção
neurológica chamada si em todos nós.
Era o verão de
1848 na Nova Inglaterra, e a Rutland e Burlington Railroad Company estava
construindo novos caminhos para os seus trens. O caminho proposto passava por
um terreno irregular, e pedregulhos tinham de ser explodidos para limpar o
caminho para os trilhos serem dispostos.
A equipe de
construção supervisionando a explosão era liderada por um certo Phineas Gage,
um homem de 25 anos descrito por seus superiores como "o mais eficiente e capaz
trabalhador já contratado por eles" (Macmillan 2000, p.
65). Dizia-se dele ainda que tinha "hábitos moderados" e "uma considerável
energia de caráter", e "era considerado por aqueles que o conheciam como um
perspicaz e esperto homem de negócios, muito enérgico e persistente ao executar
todos os seus planos de ação"(IBID.). Em resumo, não se podia achar alguém
melhor para liderar a equipe de construção.
Para explodir, a
equipe escavaria uma abertura estreita na rocha, enche-la pela metade com
pólvora, inserir o estopim, e então tapar o resto do buraco com areia, o que
iria conduzir a explosão para o lado de dentro, para a rocha que se pretendia
destruir.
Uma vez
acrescentada a areia, ela tinha de ser socada com uma barra de ferro, então o
fusível era aceso e a explosão seguia. Gage e sua equipe estavam executando
exatamente esse procedimento quando o engano fatal ocorreu.
Para uma
abertura em particular, a pólvora fora colocada o fusível aceso, mas a areia
ainda não tivera sido colocada. No entanto, antes que pudesse sê-la, Gage se
distraiu e sem pensar socou a própria pólvora. Seu socador de ferro produziu
faíscas, a pólvora se acendeu, e a explosão - canalizada e dirigida pelas
paredes estreitas da abertura - voou para o rosto de Phineas Gage. O socador de
ferro, que estava o tempo todo no buraco, foi propelido como um projétil direto
para a sua cabeça.
O socador de
ferro, com mais de um metro de comprimento e com um diâmetro de pouco mais de
3cm numa ponta, se afunilando até 1cm na outra, perfurou primeiro a bochecha
esquerda de Gage, penetrou a base do seu crânio, atravessou a frente do seu
cérebro, e escapou através do topo da sua cabeça, deixando uma horrível ferida
na saída. Coberto de sangue e material cerebral, o ferro caiu no chão, mais de
30 metros depois. Gage foi nocauteado pela força do golpe, mas espantosamente,
depois se sentou e falou. Ele estava consciente e parecia em pleno domínio de
suas faculdades, apesar do terrível ferimento que acabara de sofrer. Seus
homens o ajudaram a ir até a cidade para ver um médico.
O doutor que o
examinou, Dr. John Harlow, confirmou essa impressão inicial. Phineas Gage
estava totalmente coerente; ele não ficou paralítico e não tinha dificuldade em
caminhar, falar ou usar suas mãos. Ele perdera a visão do olho esquerdo como
resultado de seu acidente, mais por outro lado seus sentidos e faculdades
estavam intactos. Ele até conversava com Harlow perfeitamente calmo e racional,
apesar do buraco em seu crânio. Sem conseguir acreditar, o doutor ajudou a
tratá-lo, e com sua ajuda Gage mais tarde sobreviveu ao ferimento e a uma
subseqüente infecção e febre - um grande feito por si só, numa era anterior aos
antibióticos.
No entanto, logo
se tornou aparente que Gage não sobrevivera a essa provação intacto. Quase que
imediatamente após sua febre ter passado e suas feridas se curarem, mudanças
grandes e surpreendentes em sua personalidade começaram a surgir.
Essencialmente, ele não era mais o homem que era antes do acidente. Como o Dr.
Antonio Damasio escreve:
"E ainda assim
este espantoso resultado [Gage sobreviver] some em comparação com a
extraordinária virada a qual a personalidade de Gage estava prestes a se
submeter. A disposição de Gage, seus gostos e desgostos, seus sonhos e
aspirações, tudo iria mudar. O corpo de Gage pode estar vivo e bem, mas há um
novo espírito animando-o." (Damasio 1994, p.
7)
O homem que
Phineas Gage era antes do seu acidente morreu. Como escreveu um perplexo Dr.
John Harlow, ele se tornara "caprichoso, irreverente, dado às mais pesadas
profanidades que não eram de seu costume, manifestando pouca deferência por
seus companheiros, impaciente diante de conselhos que conflitem com seus
desejos, às vezes teimoso, ainda caprichoso e vaciloso, criando muitos planos
de coisas futuras, arranjados porém logo abandonados... uma criança em sua
capacidade intelectual e manifestações, ele tinha as paixões animais de um
homem forte." (quoted in Damasio 1994, p.
8)
Um contraste
mais forte com o homem que era antes seria impossível de imaginar - "as
alterações na personalidade de Gage não foram sutis" (p. 11). Onde uma vez fora
polido, modesto e adorável, ele se tornou bruto, profano e indelicado. Onde uma
vez fora responsável e orientado a objetivos, se tornou agora preguiçoso e
irresponsável, e conceberia toda a sorte de planos malucos e falharia em seguir
qualquer um deles. Onde uma vez tomava decisões sagazes e espertas, parecia
agora estar ativamente tentando conduzir-se à ruína por via de instâncias
repetidas de mau julgamento. Tão dramática e óbvia foi a mudança que seus
ex-amigos tristemente diziam que ele "não era mais o Gage" (quoted in Damasio 1994, p.
8). Seus chefes se recusavam a lhe devolver seu antigo emprego, não porque lhe
faltava a técnica, mas porque não tinha mais a disciplina nem o caráter.
Por muitos anos,
Gage pegou empregos menores trabalhando em um estábulo ou como condutor de
diligência. No entanto, em 1860, ele começou a sofrer ataques inesperadamente.
Após isto, seu declínio começou a se acelerar; ele trabalhava como um criado
numa fazenda e fazia muitos bicos, mas sempre se mudava rápido, por
"[encontrar] algo que não o atendia em todo lugar que tentava" (Macmillan 2000, p.
66). Finalmente, em 21 de maio de 1861, ele sofreu uma série de fortes ataques,
entrou em coma, e morreu sem recuperar a consciência.
O crânio de Gage
foi exumado após sua morte e se tornou um item de museu, e cento e vinte anos
depois, o dr. Damasio e seus colegas decidiram analisá-lo para determinar
exatamente onde seu cérebro tivera sido ferido. Construindo um modelo
tridimensional em computador de seu crânio, rodaram simulações para determinar
o caminho mais provável que a barra de ferro percorreu, baseado nas feridas de
entrada e saída, que nunca se curaram totalmente.
O que eles
descobriram não foi surpreendente. A região do cérebro de Gage que foi
danificada foi uma parte dos lobos frontais chamada de córtex pré-frontal
ventromedial - precisamente a parte que hoje se acredita ser crítica para
tomada normal de decisão (p. 32). Com esta parte de seu cérebro destruída, ele
era incapaz de planejar o futuro, comportar-se de acordo com regras e costumes
sociais, ou decidir o curso de ação mais vantajoso. Que ele se comportasse como
de fato o fez era de se esperar, e não foi sua culpa nem o resultado de
qualquer decisão consciente. Dr. Damasio escreve, "É apropriado dizer... que o
livre arbítrio de Gage fora comprometido" (p. 38).
A lição mais
importante que podemos tirar do estranho e trágico caso de Phineas Gage é que
as regiões frontais do cérebro fazem um papel crucial em determinar a
personalidade. Da mesma forma, elas têm um papel crucial em controlar o
comportamento, permitindo-nos inibir nossos impulsos imprudentes e conduzir-nos
conforme a sociedade espera. Estas funções podem ser desabilitadas quando os
lobos frontais são danificados ou destruídos. O caso de Phineas Gage também não
é o único registrado. Como o restante desta seção irá mostrar, há muito mais
exemplos de pessoas com dano no lobo frontal que exibem sintomas similares:
inabilidade de tomar decisões sabias, de se comportar como a lei ou os costumes
esperam, e de se encaixar na sociedade como um ser humano normal. Como pode uma
hipótese dualista explicar isto? A explosão do ferro naquela manhã de 1848
tirou a alma de Gage da sua cabeça? Uma teoria materialista da mente pode
facilmente explicar como os traços de caráter de uma pessoa podem ser alterados
por dano físico. Para os modelos dualistas que afirmam que traços de caráter
surgem em última análise de um "fantasma" imaterial invulnerável ao dano, estes
casos não são explicáveis da mesma forma.
Demência
Frontotemporal
Como o caso de
Phineas Gage mostra, os lobos frontais do cérebro prestam dois papeis
importantes: eles são os centros "executivos" ou regulatórios, controlando o
comportamento e inibindo ações inapropriadas, e são componentes vitais do senso
de si, dando surgimento aos traços de personalidade que tornam uma pessoa um
indivíduo único. E exatamente como a posição materialista prevê, qualquer uma
dessas funções pode ser alterada ou eliminada inteiramente por dano
neurológico.
Mais evidências
para isto vem de um estudo feito pelo Dr. Bruce Miller e colegas para o
periódico Neurology, no qual examinaram os efeitos de um distúrbio
cerebral genético chamado de doença de Pick, ou demência frontotemporal (FTD),
que normalmente ataca pessoas entre 55 e 60 anos. Ainda que similar em muitos
aspectos a outras doenças neurodegenerativas tais como o mal de Alzheimer, FTD
difere delas ao atacar primariamente os lobos frontais e temporais anteriores,
áreas que a neurociência acreditava estarem intimamente ligadas à personalidade
e ao senso de si. Os primeiros sintomas da FTD incluem perda de empatia,
comportamento egoísta ou indelicado, perda de inibições, e agressividade. (Alzheimer's
Society 2000).
FTD do
hemisfério esquerdo normalmente causa afasia e deficits de linguagem. Por
contraste, seis dos sete pacientes no estudo do Dr. Miller que tiveram FTD do
hemisfério direito frontal mostraram mudanças dramáticas de personalidade como
um dos primeiros sintomas de sua doença. Estas mudanças alteraram traços de
personalidade e preferências em áreas diversas como escolha de comida e
vestuário, ideologia política, comportamento social, preferência sexual, e - a
mais destrutiva de todas para o dualismo - religião.
O primeiro dos
pacientes do Dr. Miller era uma senhora de 54 anos que começou a experimentar
perda de discernimento e inibição nove anos antes. Uma vez uma adoradora de
roupas de grife e culinária francesa, ela começou a comprar marcas mais baratas
de roupas e a comer em restaurantes fast-food. Sua personalidade se tornou
"irritável, agressiva e dominadora" (Miller 2001, p.
818), e ela se tornou apática e largou o emprego.
O segundo
paciente foi um homem de 67 anos que começara a mostrar sintomas de demência
tendo apenas 40 anos. Ele vendera um negócio que possuíra e tentara uma
variedade de novos empregos, mas era seguidamente demitido por comportamento
irresponsável; uma vez "um individuo crítico e autoconfiante que reconhecia
suas próprias falhas" (p. 919), ele agora culpava seus empregados por seu mau
desempenho. Suas visões outrora puritanas sobre sexo se tornaram liberais,
tolerantes e experimentais, e ele insistia que seus filhos adotassem um estilo
de vida "libertino". Aos 57, ele se tornara descuidado, irascível e facilmente
irritado, e aos 64 estava totalmente demente.
A terceira
paciente era uma mulher de 63 anos que outrora fora uma conservadora
bem-vestida. Aos 56, no entanto, se tornara reclusa, anti-social, hostil e
indiferente; num momento, passava por um sinal vermelho, batia em outro carro e
então despreocupadamente deixava a cena do acidente para fazer compras. Aos 62,
sua ideologia política tivera mudado, tornando-se diametralmente oposta as suas
crenças anteriores; se tornou uma apaixonada advogada dos direitos animais,
discutia publicamente com pessoas que via comprando livros conservadores,
começou a usar camisetas e calças folgadas com slogans pró vida selvagem, e deu
declarações anti-conservadoras polemicas como "os republicanos deviam ser
varridos da Terra" (IBID.)
O quarto
paciente, um homem de 53 anos, largou seu emprego de presidente de uma agência
de publicidade de sucesso aos 35, declarando sua intenção de escrever uma
novela política. Ele se mudou para a Guatemala, mas nunca escreveu nada, em vez
disso assumindo um interesse em fotografia e esculturas de cera; durante todo o
seu tempo, ignorou sua família e nem tentou se comunicar com sua mulher e filhos
por meses. Ele eventualmente voltou para casa, mas aos 51 anos esta passando
dos limites, traindo e mentindo compulsivamente, criticando duramente
convidados e membros da família pelos assuntos mais simples, olhando de forma
inapropriada para mulheres que não a sua esposa, e se masturbando em público.
Dentro de dois dias ele teve que ser internado numa instituição.
Outro paciente
era bem similar, um corretor de ações aposentado que decidiu se tornar um
artista. Como o último paciente, ele exibia mudanças de linguagem, vestimenta e
comportamento, e rapidamente perdeu a inibição, frequentemente furtava ou
trocava de roupas em público sem se constranger. Mais tarde parou totalmente de
tomar banho e trocar de roupas, o talento artístico que desenvolvera sumiu, e
se tornou demente.
O caso do
paciente final é o mais interessante de todos. Uma mulher de 70 anos, ela
expressava "intenso ódio" (IBID) por seu marido na sua morte, mesmo ela tendo
sido casada com ele por décadas. À medida que a demência piorava, a mulher, que
fora uma luterana por toda sua vida, converteu-se ao Catolicismo, fez doações
para a igreja, e se apaixonou por um padre e afirmava ter um relacionamento com
ele. Seis meses após sua conversão religiosa, ela estava totalmente demente.
O materialismo
pode explicar os efeitos da demência frontotemporal sem dificuldade. Como o
dualismo a explica? A deterioração do cérebro está causando mudanças na alma -
ou os traços de personalidade são uma qualidade do cérebro e não da alma? Mas
isso implica que esses tratos se perderão com a morte. Nesse caso, em que
sentido irá a alma no além ser a mesma pessoa que era durante a vida?
Além disso,
muitas variedades do teísmo devem necessariamente manter que traços de
personalidade e preferências vêm da alma e não do cérebro, porque os traços de
personalidade determinam a forma como pensamos e reagimos, e é dito em muitas
religiões que pensamentos e ações serão levados em consideração quando nosso
lugar no além for julgado. Realmente, cinco dos clássicos "sete pecados
capitais" - orgulho, inveja, luxúria, ira e ganância - são puramente estados
mentais, e todas as grandes religiões sustentam que um mero pensamento
impróprio pode ser um pecado.
Mas o caso mais
interessante de todos é o último. Se a FTD pode fazer uma pessoa trocar sua
religião, pode fazer com que outros façam o mesmo. E se há uma coisa que de
acordo com o dualismo deve vir da alma e não depender de um cérebro
material e vulnerável, é a escolha de religião. No entanto, as evidências
mostram que não é o caso. FTD pode ser herdada; Deus irá castigar as pessoas
pelos seus genes? Se a escolha de religião de uma pessoa importa para ele, por
que ele sequer criaria uma doença assim em primeiro lugar? Ou é o trabalho do
Demônio - mas desde quando os seus poderes lhe permitem ser capaz de chegar a
fazer as pessoas mudarem suas crenças, em vez de apenas tentá-las?
Euforia e "Morte Emocional"
Tem-se notado já
que o hemisfério direito do cérebro parece ser mais emocionalmente volátil do
que o esquerdo, mais sujeito a emoções negativas como raiva, tristeza e pesar.
Ele consistentemente tende a ver o mundo como mais hostil e desagradável do que
o esquerdo vê (Sagan 1977, p.
189). No entanto, isto não significa que o hemisfério direito é no todo
prejudicial ou desnecessário para a evolução humana. Estes sentimentos são uma
parte normal da composição humana, e há ocasiões em que elas são apropriadas e
saudáveis. Uma falta delas pode ser tão prejudicial quanto um excesso delas,
como o seguinte caso mostra. Se o hemisfério direito está danificado e incapaz
de funcionar normalmente, o hemisfério esquerdo, mais plácido, domina, e a
pessoa pode ficar ou emocionalmente "achatada" e indiferente às preocupações
dos outros, ou num estado de constante euforia de baixa intensidade,
independente das circunstâncias.
Dr. Kenneth
Heilman fornece um estudo de caso que ele testemunhou: um jovem padre jesuíta
que tinha por hobby praticar mergulho, que uma vez subiu à tona rápido demais.
Como resultado, sofreu um enjôo de descompressão que por fim resultou numa
ruptura na sua artéria carótida direita e um ataque no seu hemisfério direito.
Nos primeiros dias após o acidente, ele estava letárgico, mas depois se
recuperou e de certa forma se tornou mais alerta. No entanto, embora soubesse
que teve um ataque, "ele parecia ficar totalmente despreocupado sobre isso e às
vezes parecia achar que aquilo era engraçado." (Heilman 2002, p.
77).
No entanto, sua
síndrome teve repercussões mais profundas. Numa aposta para determinar os
efeitos exatos do ataque, Dr. Heilman passou vários dias conversando com ele. O
jovem padre era um homem inteligente e articulado, e seus diálogos versavam
sobre muitos tópicos, mas ele "nunca via sinais de preocupação, tristeza ou
raiva mesmo quando conversávamos sobre assuntos que normalmente provocam tais
respostas" (p. 78). Em particular, o jovem padre tinha uma irmã com leucemia,
mas não expressou nenhuma tristeza ou preocupação ao discutirem sobre ela ou
sua doença.
As suspeitas do
Dr. Heilman sobre o que houvera acontecido ao homem se confirmaram quando seus
pais vieram visitá-lo e foram embora perturbados. Conforme lhe disseram:
"Ele parece-se
com o nosso filho e tem a mesma voz que o nosso filho, mas ele não é a mesma
pessoa que conhecíamos e amávamos... ele não é a mesma pessoa que era antes de
ter este ataque. Nosso filho era uma pessoa calorosa, carinhosa e sensível.
Tudo isto se foi. Ele agora fala como se fosse um robô". (p. 78-79, ênfase
minha).
Como
discutido anteriormente, o hemisfério direito, entre outras coisas, possui a
habilidade de investir tons emocionais a nossa fala e expressões faciais. Mas
algo ainda mais fundamental estava errado com o jovem. Seus pais explicaram: "Quando
conversamos sobre seus deveres como padre e lhe dissemos que ele poderia não conseguir
mais segui-los, ele disse, 'E daí?'", e mais ainda:
"Ele
tem uma irmã mais nova com leucemia. Ele é louco por ela, ou talvez deva dizer,
era. Ela estava em remissão quando ele veio para as Índias Ocidentais, mas
agora ela está no hospital com uma recaída. No começo, estávamos hesitantes em
lhe contar porque não queríamos perturbá-lo, mas fiquei surpresa que ele nunca
perguntou sobre ela, então decidi contar a ele. Ele nunca perguntou como ela
estava indo, e a única coisa que ele disse após lhe contarmos sobre o estado
dela foi, 'O Jim Thomas ainda está cuidando dela? O Jim é uma figuraça. Sempre
conta as melhores piadas. Quer ouvir uma?' Eu lhe disse, não! Não estava a fim
de piadas. Ele disse, 'uma pena'. Não era assim que nosso filho agia antes de
ficar doente." (IBID, ênfase minha).
Esta
dolorosa história ilustra como uma propriedade humana tão fundamental quanto a
compaixão surge do cérebro e pode ser destruída ao se alterar o cérebro. Um
jovem inteligente, amável e carinhoso, por resultado de uma seqüela cerebral,
passou por uma drástica mudança de personalidade. Tornou-se indiferente a seu
sacerdócio e despreocupado com doença potencialmente fatal de um ente querido,
até mesmo brincando com bom humor sobre o assunto com seus angustiados pais,
que disseram que ele "não era a mesma pessoa que conheciam e amavam", não a
mesma pessoa que era antes de seu ataque.
Um
dos ensinamentos morais mais básicos, encontrados nas escrituras sagradas de
muitas religiões, é amar seus companheiros como a si mesmo - em outras
palavras, mostrar compaixão. Mas este jovem, sem ter culpa alguma, parece ter
perdido esta habilidade. Sem mais poder sentir essas emoções negativas, como
conseqüência ele aparentemente tornou-se incapaz de imaginar como elas devem
ser para os outros. Sua habilidade de empatizar com o sofrimento dos outros, de
experimentar a dor deles como se fosse sua própria, tornara-se "borrada" por
uma constante euforia branda. Como pode um homem ser subtraído de um dos traços
mais fundamentais de humanidade por seqüela cerebral se a doutrina da alma é
verdadeira?
Psicose
e Depressão
A depressão
clínica é um dos distúrbios mentais mais comuns em existência. Entre 10 e 15%
das pessoas irão sofrer de alguma forma de transtorno depressivo durante suas
vidas - 19 milhões de pessoas a cada ano só nos Estados Unidos. Mas apesar da
freqüência da condição, ela é frequentemente mal-compreendida. Depressão não é
a mesma coisa que uma crise temporária de tristeza, assim como um indivíduo
depressivo não pode simplesmente "acordar dela" ou desejar sentirem-se melhor,
assim como também não é um sinal de fraqueza pessoal. É uma doença séria, porém
tratável, resultante de um desequilíbrio de neurotransmissores dentro do
cérebro. Ainda que a depressão possa ser induzida por condições ambientais,
muitos casos têm base genética, e muitas vezes o começo da depressão não tem
relação alguma com as circunstâncias da vida de um indivíduo. A depressão
produz um estado persistente de tristeza, ansiedade, culpa, desamparo e
desespero que dura por semanas ou meses a ponto de interferir na capacidade de
se viver uma vida normal, e em casos graves pode levar a tentativas de
suicídio. (NIMH 2002, AFSP 2002). Cristãos
e outros teístas de forma alguma estão imunes a esta condição (veja http://www.christian-depression.org).
A confusão sobre
a depressão entre cristãos é generalizada - o site Christian Depression é um
testemunho a isso, mencionando, por exemplo, uma igreja cujo site condenou a
depressão como uma falha de autodisciplina. No entanto, tais afirmações são
falsas, e a verdadeira explicação da depressão clínica é menos concordante com
o teísmo. Já que muitas religiões consideram o suicídio um pecado, Deus
responsabilizaria uma pessoa que tirou sua própria vida por resultado de sua
doença depressiva? É difícil de crer, se a alma existe, que as falhas do corpo
possam exercer tamanha influência sobre ela.
Mas ainda mais
chocante para o dualismo, a depressão também é por acaso uma das doenças
mentais mais curáveis - em torno de 90% dos pacientes podem ser eficientemente curados
(AFSP 2002), muitas
vezes com o uso de antidepressivos que aumentam a quantidade do
neurotransmissor serotonina no cérebro. (Serotonina é uma substância química
que os neurônios usam para se comunicarem entre si, que influencia um vasto
leque de humores e comportamentos. Deficiências de serotonina implicam em
depressão, comportamentos agressivos, transtorno obsessivo-compulsivo, e outras
doenças mentais). Exatamente como prevê o argumento da unidade mente-cérebro,
substâncias químicas que alteram a química cerebral podem ter efeitos poderosos
e fundamentais na consciência. Como isto pode ser conciliado com a alegação
teísta que a nossa consciência depende de algo mais do que a matéria?
Suporte ainda
mais forte para o argumento da unidade vem de condições psicóticas como a
esquizofrenia, que às vezes faz com o que o paciente tente ferir outros.
A esquizofrenia é o exemplo clássico: uma doença mental crônica e grave que
afeta aproximadamente 1% da população (NIMH 1999). Esquizofrênicos
sofrem com sintomas bizarros e assustadores como alucinações, vozes, e
desligamento em geral da realidade. Em casos graves, essas vozes internas podem
comandar o indivíduo a ferirem outras pessoas, um comando a que eles podem não
conseguir resistir.
Deve-se
enfatizar que a esquizofrenia e outras doenças mentais não necessariamente
causam comportamento violento. A vasta maioria das pessoas sofrendo de
condições psicóticas é retraída em vez de violenta, e representa mais um perigo
a si mesmas do que aos outros. No entanto, é inegável que existe um pequeno
subgrupo de casos em que transtornos psicóticos estão ligados a atos agressivos
e violentos (Walsh et al.
2004). De fato, temas religiosos muitas vezes surgem
nessas situações; o sofredor pode crer que Deus o ordenou que cometesse esses
atos, ou que a sua vítima é Satã ou de alguma maneira mau. (para uma amostra de
casos onde a esquizofrenia e outros transtornos mentais têm sido ligados a
comportamento violento, veja http://www.schizophrenia.com/family/viol.html.) Outros
distúrbios mentais podem causar comportamento violento; por exemplo, um
indivíduo sofrendo de um grave caso de síndrome de Capgras convenceu-se de que
seu pai era um robô, então decapitou-o e abriu o seu crânio para procurar pro
microchips. (Ramachandran
1998, p. 166).
Como a
depressão, doenças psicóticas podem ser tratadas com medicação que reprime as
alucinações, ilusões paranóicas e outros sintomas da doença. Novamente, é justo
perguntar como o dualismo pode explicar isto. Um desequilíbrio na química do
cérebro produz uma alteração na consciência; uma substância que corrige este
desequilíbrio desfaz a alteração. Em ponto algum dessa equação a alma entra. E
como as doutrinas teístas do além acomodam estes fatos? Ao julgar as almas dos
mortos, Deus irá condenar pessoas que genuinamente careciam da habilidade de
distinguir o certo do errado? Como ele trata pessoas que de fato não puderam
controlar seu comportamento violento - ou pessoas que sinceramente crêem que
ele lhes mandou fazer o que fizeram? É possível escapar do inferno alegando
insanidade?
Se, como a
maioria das vertentes do teísmo crê, o propósito da vida corpórea na Terra é um
campo de teste onde é permitido às pessoas determinarem livremente seu destino
eterno, então a existência de tais condições é um fato inesperado que não se
encaixa bem dentro dessa plataforma. Teístas que crêem nisto precisam postular
que Deus nos colocou na Terra com o propósito de exercer nosso livre arbítrio,
mas que também criou condições que influenciam a personalidade de certas pessoas
e impedem-nas de exercerem seu livre arbítrio - um pressuposto bastante forçado
e ad hoc. Por contraste, uma teoria materialista da mente pode explicar
de maneira consistente todas essas condições e outras mais.
Unidade
de Comportamento
Alterações
Comportamentais Causadas por Tumores
O futuro parecia
brilhante para Mary Jackson. Apesar de ter vivido num subúrbio pobre, ela
superou essa desvantagem para se tornar a laureada dos formandos do segundo
grau, e ganhara uma bolsa para universidade da Ivy League. Estava a caminho de
realizar seu objetivo de se tornar uma pediatra e trabalhar com crianças nas
mesmas áreas pobres onde passara sua própria infância.
No entanto, no
verão após seu segundo ano, aqueles próximos a ela começaram a notar mudanças
estranhas em seu comportamento. Ela crescera como uma batista devota e
raramente bebera álcool antes, mas agora ela começava a beber regularmente, em
freqüência alarmante. Ela começou a freqüentar bares, primeiro em fins de
semana, depois em dias de semana, e muitas vezes acabava dormindo com homens
que conhecia lá, apesar de já ter um namorado. Mais tarde, passou a usar
cocaína.
O verão terminou
e ela retornou à faculdade. Suas notas no ano seguinte foram terríveis - quatro
F's e dois D's. seu conselheiro a avisou que ela iria perder sua bolsa se isto
continuasse, mas ela recusou seu conselho terminantemente, tornou-se irritada e
verbalmente abusiva diante da sugestão. Seu desempenho acadêmico, assim como
sua saúde, continuava a piorar durante o semestre seguinte. Ela finalmente foi
ao médico após pegar uma pneumonia que parecia não passar, e seus exames
revelaram um trágico diagnóstico: Mary Jackson contraíra HIV e agora estava com
AIDS. Sua queda ladeira abaixo parecia completa.
Mary admitiu sua
promiscuidade, mas insistia que não era por dinheiro. Chorando, ela dizia não
entender por que se tornara promíscua; isto nunca acontecera quando ela era
mais jovem, mas por alguma razão, ela não conseguia mais recusar os homens que
conhecia nos bares. Seu médico suspeitou de um transtorno de personalidade, mas
ela mostrara outro sintoma que o deixou desconfiado: ela não menstruava há
meses. Suspeitando de um transtorno em sua glândula pituitária, ele a
encaminhou para o neurologista Dr. Kenneth Heilman.
Dr. Heilman descobriu
que Mary perdera sua motivação para objetivos de longo prazo, não conseguia
evitar situações de sedução, e se tornara pavio-curto e facilmente frustrada.
Ao lhe pedirem para repetir um simples teste de memória, ela disparou, "uma vez
é o bastante", e admitiu, "Há até um ano atrás, era extremamente raro eu me
irritar. Agora parece que estou sempre na ponta dos cascos" (Heilman 2002, p.
83).
Além disso, ela
tinha um conjunto de outros sintomas estranhos. Um deles era um distúrbio
chamado síndrome da dependência do ambiente, em que o comportamento do
paciente parece controlado por deixas e estímulos externos em vez de por
decisões internas. Ao lhe darem papel e caneta, mas nenhuma instrução de o que
o fazer com eles, ela imediatamente pegou a caneta e começou a escrever o seu
nome. Quando um pente foi colocado por sobre a mesa em frente a ela, ela pegou
o pente, como que inconscientemente, e começou a pentear o cabelo (p. 84).
Os lobos
frontais regulam e inibem o nosso comportamento, e a síndrome da dependência do
ambiente é um sinal clássico de disfunção do lobo frontal. Seus outros sintomas
também se encaixam perfeitamente neste diagnóstico. Mas por que esta mudança de
comportamento nela foi tão repentina?
Dr. Heilman
achou a resposta ao pedir um exame de ressonância magnética no cérebro de Mary.
O ERM revelou que um grande tumor estava crescendo em seu cérebro, surgindo da
glândula pituitária e pressionando seus córtix orbitofrontais, áreas do lobo
frontais assim chamadas por estarem diretamente acima das órbitas dos olhos.
Foi este tumor que causou a mudança súbita e dramática em sua personalidade.
Mary passou por
cirurgia para remover o tumor e começou uma terapia de combinação antiviral
para controlar a infecção por HIV, e a mudança resultante em sua personalidade
foi tão dramática e súbita quanto fora a anterior. Sua motivação retornou, e
ela voltou para a faculdade, conseguiu seu bacharelado, e entrou no mestrado em
sociologia. "A mãe dela pensa que ela ainda perde a cabeça mais rápido do que
antes do tumor, mas em geral diz que sua filha é 'a mesma de antes'" (p. 85).
Um caso
possivelmente ainda mais chocante do que o de Mary Jackson foi apresentado
pelos neurologistas Russell Swerdlow e Jeffrey Burns na reunião anual de 2002
da Associação Neurológica Americana: um homem cujo tumor cerebral o transformou
num pedófilo (Choi 2002).
O paciente, um
professor de 40 anos, tivera uma história normal sem registro por assédio
sexual. Mas então, sem aviso nem razão aparente, seu comportamento mudou: ele
começou a se relacionar com prostitutas, visitar secretamente sites de
pornografia infantil, e finalmente começou a agredir menores, comportamento
pelo qual ele foi preso e acusado de abuso sexual infantil. O próprio homem
sabia que este comportamento era inaceitável, mas em suas próprias palavras, o
"princípio do prazer" falou mais alto que seu autodomínio (IBID), e ele falhou
no tratamento nos Sexólatras Anônimos. Na noite anterior a sua sentença, ele
deu baixa num hospital, dizendo que temia estuprar mais alguém e reclamava de
dores de cabeça. Um ERM revelou que ele tivera um tumor cerebral do tamanho de
um ovo - e assim como o de Mary Jackson, esta pressionando o seu córtex
orbitofrontal.
Uma cirurgia
removeu o tumor, e após recuperar-se da operação, o homem conseguiu completar
com sucesso o curso nos Sexólatras Anônimos e voltou para casa. Por algum
tempo, seu comportamento estava completamente normal. Então, em volta de
outubro de 2001, ele começou a reclamar de dores de cabeça novamente, e mais
uma vez começou a colecionar pornografia. Um segundo ERM revelou que o tumor
começara a voltar; novamente foi extirpado, e novamente o comportamento
desapareceu.
Em ambos os
casos, a medida que o tumor crescia, as personalidades desses pacientes mudaram
radicalmente, junto com alterações correspondentes de comportamento. Quando
foram removidos, suas personalidades de pronto retornaram ao normal, e seu
comportamento normal e aceitável retornou. Essa variação correlacionada fornece
fortes evidências de que personalidade e comportamento estão unificados no
cérebro. Os valores que guiam nosso comportamento, a motivação para embarcar e
completar objetivos, os traços básicos de caráter que determinam quem somos e
como agimos - as evidências mostram claramente que todas essas coisas surgem
dos lobos frontais de nossos cérebros.
Acinesia
Paralisia é a
incapacidade de se mexer, mas existe uma condição ainda mais incomum chamada de
acinesia, a indisposição de se mexer. Nesta condição, não há razão
física pela qual a pessoa não possa realizar tarefas; em vez disso, o que está
faltando é a habilidade de iniciar o movimento. A menos que seja fortemente
encorajada por outras, e às vezes nem assim, sofredores de acinesia irão
passivamente se sentar e fazer absolutamente nada, exceto atender as
necessidades de curto prazo mais imediatas. Ao contrário da paralisia, que é um
defeito físico, a acinesia resulta de um defeito na personalidade, na
motivação. Baseado em alguns dos distúrbios que este ensaio já cobriu, pode-se
suspeitar que a acinesia seja outra ligada aos lobos frontais, e essa suspeita
mostra-se absolutamente correta.
Dr. Kenneth
Heilman nos dá um exemplo particularmente dramático do que é a acinesia: o caso
de Thomas Taylor, um bispo batista de 58 anos. Antes de sua doença, ele era um
homem trabalhador, meticuloso, independente e ativo na sua igreja e comunidade,
e tão dedicado que ele recusava as ofertas dos seus paroquianos em lhe pagarem
um salário e continuava a se sustentar trabalhando fora da igreja. (Heilman 2002, p.
206).
Mas isto não
iria durar muito. O primeiro sintoma que se manifestou foi que ele começou a
aparecer tarde em seus compromissos. No entanto, à medida que sua acinesia
tornava-se mais pronunciada, ele parou de manter os próprios compromissos em
si, e então parou de sair de casa. Tudo o que ele faria todo dia, após a
família tirá-lo da cama, era sentar-se no sofá; no início ele ligava a TV, mas
eventualmente até isto parou. Ele parou de tomar banho, barbear-se, e trocar
suas roupas sozinho, e depois parou de falar. Ele falava apenas para responder
perguntas diretas, e mesmo assim, normalmente só respondia com monossílabos.
Uns dois ou três anos após o início de sua condição, sua acinesia estava tão
grave que ele não se levantava mais nem para ir ao banheiro, assim urinando nas
calças. Ainda que ele antes escrevia e pregava um novo sermão toda semana, o
último mês em que pregou na sua igreja, ele deu o mesmo sermão três semanas
seguidas.
Este foi o
registro que sua esposa deu sobre sua condição, e quando o Dr. Heilman
perguntou ao próprio Sr. Taylor, ele confirmou a história.
"Quando eu
perguntei por que ele dava o mesmo sermão repetidamente, ele respondeu, 'se
eles são burros o bastante pra sentar e escutar ao mesmo sermão é porque
merecem'". Ao ouvir essas palavras, lágrimas desceram pelo rosto da esposa. 'Dr.
Heilman, você não acredita o quanto este homem mudou. "Três ou quatro anos
atrás, eu jamais o imaginaria dizendo qualquer coisa assim." (p. 207,
ênfase minha)
O exame do Dr.
Heilman logo revelou a causa da condição do bispo: um tumor benigno
pressionando seus lobos esquerdo e direito. Uma cirurgia de rotina removeu-o, e
como no caso de Mary Jackson, sua recuperação foi rápida e impressionante.
"Uma vez fui
visitar o Sr. Taylor, e ele mostrou uma melhora dramática. Ele não estava
pregando, mas estava ensinando na escola de domingo, cuidando de si e fazendo
planos para voltar a trabalhar novamente". (p. 207)
Síndrome
da Dependência do Ambiente
Como mostra o
caso anterior, os lobos frontais do cérebro prestam um papel importante em
iniciar o comportamento, e esta função pode ser desligada se forem danificados.
No entanto, as evidências mostram que os lobos frontais prestam um papel
igualmente importante em inibir o comportamento, e essa função também pode ser
desligada por dano ao lobo frontal. Relembre o caso de Phineas Gage, cuja
ferida no lobo frontal o deixou incapaz de suprimir os impulsos vulgares e
modos rudes que todos devemos frear se devemos nos encaixar na sociedade. Da
mesma forma, relembre o caso de Mary Jackson; o tumor pressionando seus lobos
frontais afetou sua capacidade de inibir comportamento perigoso ou impensado, o
que resultou em ela usar drogas, ir a bares, e frequentemente dormir com homens
que conhecia lá, já que perdera muito da faculdade de recusá-los.
Além disso, um
exame revelou que Mary Jackson tivera um sintoma clássico de disfunção do lobo
frontal chamada de síndrome da dependência do ambiente, no qual o
comportamento do paciente parece ser controlado por deixas externas em vez de
por decisões voluntárias internas. Ao receber papel e caneta, mas nenhuma
instrução do que fazer com eles, ela imediatamente pegou a caneta e começou a
escrever o seu nome; ao receber um pente, sem pestanejar, ela o pegou e passou
A pentear o seu cabelo. Thomas Taylor, o bispo batista de outro caso anterior,
expressava um sintoma similar; ao receber papel e caneta, ele imediatamente os
pegou e começou a escrever sem que ninguém lhe pedisse (Heilman 2002, p.
211). Francois Lhermitte descreveu uma enfermeira com disfunção no lobo frontal
que, quando lhe davam uma seringa, tentava dar uma injeção no doutor que a
examinava (IBID.). James Austin (Austin 1998, p.
255) descreve o que pode ou não ser o mesmo caso: um paciente que, diante da
mera visão dos instrumentos médicos comuns no escritório do seu neurologista,
não só não conseguia resistir a pegá-los como na verdade chegou a usá-los para
realizar um exame físico no próprio, bastante surpreso, neurologista.
A existência da
síndrome da dependência do ambiente levanta dificuldades para aqueles dualistas
que afirmariam que a alma é a fonte do comportamento com livre-arbítrio. No
entanto, as pessoas descritas acima realmente retiveram algum grau de controle
voluntário sobre suas ações. Em mais alguns exemplos mais dramáticos de
disfunção do lobo frontal, no entanto, isto nem sempre é o caso. Muitas vezes,
sofredores da doença são incapazes de controlar suas ações mesmo quando pedidas
a fazê-lo.
Enquanto viajava
pela Malásia em 1884, o famoso neurologista Georges Gilles de la Tourette (o
mesmo da "síndrome de Tourette") ganhou a oportunidade de estudar
vários pacientes de uma condição que ele chamou de latah. Não importa
como ela acontecia, por doença ou trauma, as funções cerebrais inibitórias dos
pacientes dessa condição eram inteiramente desligadas, e como resultado, as
vítimas são compelidas a obedecerem a qualquer comando que ouvem, e algumas
vezes, a imitarem qualquer ação que vêem. Tourette chamou essas pessoas de
"saltadores", e escreveu:
"Dois saltadores
que estavam de pé próximos um do outro foram mandados a se baterem... e eles se
bateram, muito violentamente. Quando os comandos eram dados em uma voz rápida e
alta, o saltador repete a ordem. Quando lhe mandam bater, ele bate, quando lhe
mandam jogar ele joga, o que quer que tenha nas mãos." (citado em Newberg e
D'Aquili 2001, p. 93)
Tourette
entrevistou outra mulher com essa condição, e falou com ela por dez minutos sem
perceber nada de anormal com ela. Então, o homem que lhe apresentara a ela
tirou o seu casaco.
"Para meu
horror, minha venerável convidada tomou-se de pronto a tirar o seu kabayah.
Meus companheiros chegaram tarde demais para impedi-la de continuar a fazer o
mesmo com o resto das roupas." (IBID.)
Essas pessoas
eram loucas? Tourette não pensava assim. Nas suas observações, ele não descobriu
evidência alguma de psicose em nenhuma delas, nenhum sinal de rompimento com a
realidade. De fato, ele dizia, cada vítima era "perfeitamente consciente da
humilhante condição mental que exibia, e lamenta sua degradação" (IBID.). Ainda
que quisessem controlar seu comportamento, não o conseguiam. Como outro
neurologista observou em casos similares de dependência do ambiente, "o
comportamento destes pacientes parece ser inteiramente controlado pelo mundo
externo" (Heilman 2002, p.
211).
Novamente, o
dilema para os dualistas é óbvio. Como pode Deus nos por de responsáveis por
nosso comportamento se o nosso comportamento pode ser removido de nosso
controle consciente por um dano cerebral? E a existência dessas síndromes não
implica que comportamento consciente é controlado pelas mesmas regiões
cerebrais também nas pessoas normais?
Afasia
e Incapacidade de Rezar
Afasia, uma
deficiência na linguagem falada, pode ser causada por dano aos centros de
linguagem cerebrais. Este ensaio já discutiu dois dos tipos mais comuns: a
afasia de Broca, perda da capacidade de falar, e a afasia de Wernicke, a perda
da capacidade de entender. Acontece que a afasia de Broca padrão na verdade
engloba duas capacidades distintas - a fala espontânea, a habilidade de
conduzir uma conversação, e a fala automática, a capacidade de recitar da
memória, como, por exemplo, ao cantar. Tipos mais específicos de dano cerebral
podem impactar uma dessas capacidades sem afetar a outra.
Por exemplo, o
Dr. Kenneth Heilman nos conta de um paciente seu, um judeu ortodoxo que vivera
na França a maior parte de sua vida, mas imigrara para Israel pouco antes de
sofrer um derrame. Várias vezes ao dia, judeus ortodoxos devotos recitam em
hebreu a oração monoteística de Deuteronômio 6:4: "ouça, ó Israel, o Senhor
nosso Deus é Uno.". Mas ao acordar do derrame, o paciente descobriu para seu
choque que ele não conseguia recitar essa oração, a qual recitara todo
dia por sessenta anos (Heilman 2002, p.
14). Também aconteceu que ele não podia mais cantar o hino nacional francês. Em
qualquer outro assunto, no entanto, sua capacidade de conversar estava intacta.
Incrível como isso parece, o dano ao seu cérebro impactara somente esta única
capacidade específica.
Outro exemplo se
refere a um decano de uma igreja cristã de Vermont que sofreu um derrame
similar, exceto que este impactou sua fala conversacional enquanto deixou
intacta a sua fala automática. Antes do derrame, sua esposa nunca o ouvira
xingar um palavrão; logo depois, tudo o que ele conseguia dizer eram
palavrões e o Pai Nosso. (p. 13).
Pode parecer
incrível que tais capacidades específicas possam ser comprometidas sem afetar
outras. A pessoa média pode perguntar, "Qual é o problema? Por que eles não
podiam simplesmente falar?", e realmente, se a doutrina da alma fosse
verdadeira - se todos tivéssemos um "fantasma" sobrenatural em nossas cabeças,
intacto a dano físico cerebral, que dirige nossas ações - esta seria uma
pergunta válida. No entanto, a evidência neurológica tem demonstrado
repetidamente que a nossa consciência e suas capacidades são unificadas com o
cérebro, e podem ser afetadas por dano a ele. Resumindo, "a mente é o produto
das atividades do cérebro, e as atividades do cérebro dependem da sua
organização" (p. vii).
Deve-se
perguntar se as deficiências dessas pessoas irão afetar seu destino eterno.
Iria um cristão, judeu ou muçulmano que perdeu sua fala automática ser
responsabilizado por Deus por falhar em dizer as orações que ele exigiu deles,
apesar de não terem culpa alguma? E quanto a um indivíduo profundamente
religioso que perde a capacidade de falar qualquer coisa exceto profanidades?
A afasia é
relevante à religião também de uma outra forma. Enquanto ela é às vezes
altamente específica, como os exemplos acima mostram, em casos de dano cerebral
amplo ele também pode ser bem genérico, produzindo uma destruição total da
capacidade de se comunicar. Essa condição é chamada de afasia global, e
o Dr. Heilman nos dá um exemplo: uma mulher de 34 anos chamada Cathy Henson que
deu baixa no hospital um dia após subitamente desenvolver paralisia do lado
direito, acompanhada de uma perda total na capacidade de falar, escrever e
entender a fala e escrita dos outros. Um ERM confirmou que ela sofrera um
massivo derrame que lhe causara dano por todo o hemisfério esquerdo, incluindo
o córtex de linguagem inteiro do seu cérebro (p. 61-62). Ainda que ela
reconhecesse sua família quando veio lhe visitar, ela era completamente incapaz
de se comunicar com eles.
A existência de
uma condição assim levanta dificuldades para membros de religiões evangélicas.
Como é possível converter uma pessoa com a qual não se pode nem sequer
comunicar? Ela será considerada responsável por sua crença se ela for para o
além e descobrir que ela estava errada, quando nunca tivera uma chance de
aprender ou ouvir algo diferente durante sua vida terrena?
Mutismo
Acinético
A última
síndrome que esta seção irá discutir chama-se mutismo acinético, o qual pode
ser mais bem descrito como um estado de "animação suspensa, mental e externa" (Damasio 1994, p.
71) ou como um "coma vigilante" (Ramachandran
1998, p. 252). Esta condição muitas vezes resulta de
dano a uma região do cérebro chamada córtex cingulado anterior, o que parece
ser onde os sistemas de atenção, emoção e memória de curto prazo se encontram.
Pacientes com mutismo acinético, ainda que acordados, alertas e conscientes,
simplesmente não fazem nada. Seus olhos rastreiam objetos em movimento, mas
eles deitam-se na cama sem se moverem nem falarem (daí o nome da condição) e
eles não respondem a estímulos dolorosos ou a outros (p. 253). Ainda que similar
à acinesia, esta condição é uma versão mais extrema.
Dr. Antonio
Damasio traz um estudo de caso de uma paciente, chamada Srta T, com esta condição.
Como ele escreve:
"Ela subitamente
tornou-se imóvel e muda, e ela se deitava na cama com seus olhos abertos, porém
com uma expressão facial vazia; eu muitas vezes tenho usado o termo 'neutro'
para transmitir a equanimidade - ou ausência - de uma expressão assim... seu
corpo não estava mais animado do que seu rosto. Ela pode até fazer um movimento
normal com seu braço e mão, para puxar os lençóis da cama, por exemplo, mas em
geral seus membros estavam em repouso. Quando perguntada sobre a sua situação,
ele normalmente ficava quieta, ainda que após muita insistência ela poderia
dizer o seu nome, ou os nomes de seu marido e filhos, ou o nome da cidade onde
vivia. Mas ela não falaria sobre sua história médica, passada ou presente, e
ela não conseguiria descrever os eventos que levaram a sua baixa no hospital.
Não tinha como saber, então, se ela não tinha lembrança daqueles eventos ou se
ela tinha alguma lembrança mas estava relutante ou incapaz de falar sobre ela.
Ela nunca se irritava com meu questionamento insistente, nunca mostrava um
pingo de preocupação sobre si própria ou qualquer outra coisa." (p.71-72)
Meses depois, a
Sra. T recuperou-se de seu coma consciente, e a parte mais estranha de tudo
foram as suas lembranças da doença. O mais impressionante é que ela estava
certa de que não estivera paralisada, nem que estivera sentindo dor ou
angústia. "Nada a forçara a não dizer o que pensava. Em vez disso, ela se
lembrava de que 'Eu realmente não tinha nada a dizer'" (p. 72). Pela duração da
sua doença, não houvera pensamentos em sua mente, nenhum raciocínio, nenhuma
tomada de decisão, nenhum desejo de comunicar-se ou de fazer qualquer outra
coisa. Ainda que estivesse totalmente acordada, era como se sua vontade de agir
tivera sido desligada.
Sob a luz da
evidência acima, advogados do dualismo devem agora explicar como a doutrina da
alma se sustenta. Com esses estudos de caso, eu me esforcei para mostrar que os
três aspectos básicos da consciência - identidade, personalidade, e
comportamento - estão de todas as maneiras unificadas como cérebro, e podem ser
alterados ou afetados por dano ao cérebro. Dano cerebral pode fragmentar os
frágeis limites do eu, separando um único indivíduo em esferas independentes de
consciência que percebem e desejam coisas completamente diferentes, ou
despedaçando a linha contínua da sensibilização em uma variedade de eus fugazes
separados de si mesmos e da realidade externa. Mudanças à estrutura física do
cérebro podem exercer efeitos dramáticos na personalidade, transformando um
indivíduo amigável, trabalhador, dedicado em um canalha vulgar, abusivo,
preguiçoso ou imprudente. Condições que afetam a química do cérebro podem
controlar inteiramente o comportamento, roubando de um indivíduo a capacidade
de agir ou negando-lhe a capacidade de impedirem a si mesmos de fazê-lo.
Estes fatos, até
algum ponto, já são de conhecimento comum. Tem sido universalmente reconhecido
por algum tempo, até mesmo entre teístas, que doenças como o Mal de Alzheimer
podem ter um efeito profundo sobre a consciência de um indivíduo, ou que
condições psicológicas como depressão severa podem ser curadas por remédios que
manipulam a química do cérebro. Além disso, eu tentei destacar alguns exemplos
dramáticos destes fenômenos, exemplos que demonstram alterações fundamentais do
eu. Tais ocorrências parecem ter sido aceitas pelo teísmo sem comentários.
No entanto,
estes casos constituem forte evidência contra a maioria das variedades do
dualismo cérebro-alma. Afinal, a maioria dos teístas afirma que a destruição
total do cérebro sobre a morte do corpo não terá efeito algum sobre a alma:
como então a destruição ou alteração de pequenas partes do cérebro durante a
vida pode ter um efeito tão dramático e profundo sobre ela? Uma vez reconhecido
que o cérebro media e controla todos os aspectos da consciência de forma
primordial, para que então sequer precisamos postular uma alma?
Até mesmo as
versões mais sofisticadas da doutrina da alma são vulneráveis ao argumento da
unidade mente-cérebro. Por exemplo, um teísta pode argumentar que não há a alma
como normalmente é entendida, nenhum "fantasma na máquina" imaterial vivendo
dentro de nossas cabeças e dirigindo nossas ações, mas após a morte de uma
pessoa Deus reconstitui perfeitamente seus padrões neurais em um novo corpo. É
claro, uma posição assim está totalmente de acordo com a conclusão deste ensaio
de que a consciência é um fenômeno fundamentalmente físico; mas mesmo além
disso, a objeção pode ser feita de que forma alguma é axiomático que tal
processo preservaria a continuidade da consciência. Para dizer de outra forma,
se Deus faz isto, é realmente "você" quem sobrevive? Ou Deus simplesmente
permitiu que você ficasse no esquecimento e então criou uma duplicata sua cujo
destino é baseado em suas ações?
Além do mais, o
argumento da unidade mente-cérebro ataca este sistema de crença de uma maneira
diferente. Considere o caso de um indivíduo com um distúrbio mental que altera
sua personalidade, até um ponto em que seus amigos e parentes acreditam que ele
seja em essência uma pessoa diferente (como no caso de Phineas Gage, por
exemplo). Quem será ressuscitada - a pessoa tal como era antes da doença, ou a
pessoa que se tornou depois? Qual é o "verdadeiro" eu dessa pessoa? Se as
crenças religiosas ou éticas da pessoa mudaram no curso da doença, por qual conjunto
de crenças ela será julgada? Parece absurdo sugerir que esses eus diferentes
seriam ressuscitados e julgados independentemente, como se fosse pessoas
separadas; mas por outro lado, para que Deus combine esses dois eus
essencialmente diferentes durante a ressurreição seria necessário criar um
indivíduo novo e composto, que não existia antes, em vez de recriar um que
existia anteriormente. Estas dificuldades parecem insuperáveis para o
tradicional dualismo teístico, e novamente o argumento da unidade mente-cérebro
leva inevitavelmente à conclusão de que o eu está unificado com estado do
cérebro em qualquer dado instante, e não pode ser concebido como algo com
qualquer existência independente.
E mesmo além
disso, o argumento da unidade mente-cérebro tem uma outra carta para jogar. Há
evidências sugerindo que a própria religião em si é explicável como o resultado
do funcionamento do cérebro. Neurocientistas estudando as raízes biológicas da
experiência religiosa tem feito algumas descobertas que podem ser alarmantes
para os crentes, mas que estão perfeitamente de acordo com o que os ateus têm
dito o tempo todo.
Parte
3: A Parte de Deus do Cérebro
Buscando
entender a base neurológica da experiência religiosa, os pesquisadores Andrew
Newberg e Eugene D'Aquili realizaram um experimento. Ao encontrarem um grupo
de oito voluntários que eram Budistas Zens, eles lhes pediram para meditar na
paz e silêncio de uma sala escura. Estes budistas afirmaram que, através da
meditação, eles podiam alcançar um estado chamado satori no qual
experimentavam um senso de bênção transcendental junto com um sentimento de
atemporalidade e de infinitude, como se eles fossem uma parte profundamente
entrelaçada de toda a realidade. Newberg e D'Aquili queriam descobrir o que
estava acontecendo em suas mentes quando isto acontecia.
Quando os
voluntários alcançaram o ápice de seu estado meditativo, eles puxaram uma
corda, que era a deixa para que Newberg e D'Aquili's injetassem um rastreador
radioativo em seus sangues por via intravenosa. Este rastreador viajava até
seus cérebros e tornava-se ligado aos neurônios que estavam mais ativos,
criando um instantâneo da atividade cerebral naquele instante em particular que
podia mais tarde ser retratada por uma técnica chamada SPECT (single photon
emission computed tomography). Quando o exame foi realizado, ele mostrou,
como não seria de se surpreender, que as regiões do cérebro responsáveis pela
concentração estavam altamente ativas. No entanto, havia outro resultado
consistente que se destacou. Em todos os oito testados, uma região particular
do cérebro, o lobo parietal superior, mostrou uma agude redução na sua
atividade.
O papel desta
região do cérebro já era conhecido. Como discutido na Parte 1 deste
ensaio, o lobo parietal superior é o sistema "onde" do cérebro. Seu trabalho é
orientar uma pessoa no espaço tridimensional e ajudá-la a se mover pelo mundo;
como parte desta tarefa, ela deve traçar uma distinção clara entre o "eu" e o
"não-eu". Por esta razão, Newberg e D'Aquili a chamam de "área de associação
de orientação", ou AAO. Em todos os oito voluntários, a AAO fora inibida por
seu estado meditativo profundo, privados da informação sensorial que precisa
para construir uma imagem coerente do mundo.
O que seria o
resultado disto? Sem a AOO, o cérebro é incapaz de perceber os limites físicos
do eu - incapaz de dizer onde o corpo termina e o mundo começa. (um dos
meditadores estudados descreveu a experiência como "sentir uma perda de
fronteiras" (Holmes 2001, p.
26)). E "nesse caso, o cérebro não teria escolha a não ser perceber que o eu é
interminável e intimamente entrelaçado com tudo e com todos que a mente sente.
E esta percepção seria sentida como total e inquestionavelmente real" (Newberg e
D'Aquili 2001, p. 6).
Intrigado pela
possibilidade de uma base biológica para a experiência religiosa, Newberg e
D'Aquili ampliaram o seu estudo para incluir freiras franciscanas que afirmavam
sentir um senso de proximidade com Deus sob oração profunda. O experimento foi
repetido, e os resultados foram os mesmos: ambos os budistas e as franciscanas
experimentavam quedas similares em atividade na AOO, produzindo um senso de eu
infinito que ambos os grupos então interpretavam pelo filtro de suas próprias
crenças religiosas.
Este senso de
unidade com o infinito não é a única característica da experiência religiosa.
Tais experiências são tipicamente acompanhadas por outra sensação: um
sentimento de êxtase e reverência, como se tudo estivesse dotado de
significância cósmica e profundo sentido intrínseco. No passado, tais sensações
eram reduzidas aos efeitos da comunhão com o divino, mas a ciência tem
localizado a sua base neurológica também. Não surpreende que estas sensações
também possam ser total e parcimoniosamente explicadas sem referência a uma
divindade.
Dentro dos lobos
temporais do cérebro está uma região evolutivamente antiga chamada de sistema
límbico. A função principal deste sistema é produzir e controlar as emoções. Em
particular, uma tarefa importante que o sistema límbico executa é "rotular" a
entrada sensorial com significado emocional, nos permitindo determinar o
significado que uma pessoa ou objeto traz para nós. Quando esta função é
afetada por dano cerebral, o resultado é a síndrome de Capgras, descrita na Parte 2 deste
ensaio.
Como com muitas
estruturas cerebrais, sabemos a função do sistema límbico em grande parte pela
observação do que acontece com pessoas em quem ele está defeituoso.
Especificamente, temos observado os sintomas da epilepsia do lobo
temporal, uma condição caracterizada por tempestades erráticas de disparos
neurais aleatórios que ocorrem nesta parte do cérebro. Quando tais ataques
ocorrem em áreas dedicadas ao controle motor, o resultado são os sintomas bem
conhecidos da epilepsia, os ataques físicos e as poderosas contrações
musculares involuntárias típicas das assim chamadas crises tônico-clônicas. Mas
quando os ataques ocorrem predominantemente nos lobos temporais e portanto no
sistema límbico, os efeitos predominantes não são físicos, mas emocionais. Pacientes
dizem que seus "sentidos estão pegando fogo" (Ramachandran
1998, p. 179), flutuando fortemente de poderosos cumes
de êxtase até vales paralisantes de terror e fúria.
Além disso, há
um outro sintoma frequentemente associado com a epilepsia do lobo temporal. Pacientes
dessa condição são muitas vezes hiper-religiosos: eles afirmam ter experiências
místicas e espirituais profundas durante os seus ataques; eles são obsessivamente
preocupados com questões teológicas, relatando textos meticulosamente
detalhados, elaborados e normalmente incompreensíveis explicando suas crenças
(uma condição chamada hipergrafia); eles vêem significância cósmica em
eventos triviais do dia-a-dia; e eles podem acreditar terem sido visitados por
Deus ou estarem na presença de Deus, ou que eles foram "escolhidos" (Ramachandran
1998, p. 179-180). Distorções do tempo e espaço, incluindo
experiências extra-corporais, muitas vezes também acontecem (Persinger 1987, p.
123; Newberg e D'Aquili
2001, p. 110). O novelista Fyodor Dostoevsky, quem se
acredita ter sido um epilético do lobo temporal, escreveu que ele "tocava Deus"
durante os seus ataques (Holmes 2001, p.
27).
Para a maioria
das pessoas com funcionamento mental normal, é óbvio que o comportamento
hiper-religioso de alguns epiléticos do lobo temporal é meramente um sintoma de
um distúrbio tratável, não um sinal de favor especial de Deus. No entanto, a
convicção produzida naqueles que experimentam esses eventos é inabalável. E
alem disso, se se acredita que Deus existe e pode ocasionalmente falar com
seres humanos, então sob que base podemos estar certos de que estas
pessoas não estão realmente se comunicando com ele? O mundo nebuloso e
infalsificável da crença teísta não oferece uma forma de excluir esta
possibilidade. Como o Dr. Ramachandran astutamente coloca:
"Quem está apto
a dizer se tais experiências são 'genuinas' (o que quer que isso signifique) ou
'patologicas'? Você, como médico, iria realmente querer medicar um paciente
assim e negar-lhe visitas ao Todo Poderoso?" (p. 179)
Mesmo assim, um
teísta pode perguntar que relevância este fenômeno traz para o resto de nós.
Ainda que a maioria das pessoas, incluindo a maioria dos teístas, não seja
epilética do lobo temporal, a relevância de encontrar uma região cerebral
associada com a experiência religiosa é obvia. Realmente, enquanto a maioria
dos religiosos não é epilética do lobo temporal, a maioria dos religiosos
também não possui experiências religiosas tão intensas quando as dos
epiléticos. No entanto, todos nós temos lobos temporais. Poderiam padrões
momentâneos e esporádicos de disparos dentro deles que não cresçam ao ponto do
nível de um ataque produzirem as crenças brandas e menos elaboradas que a
maioria das pessoas tomam como certas?
Esta é
exatamente a hipótese do neurocientista Dr. Michael Persinger, que chamou estes
padrões de ativação de estalos de atividade [N da T - do original
temporal lobe transients], ou TLTs. (Persinger 1987, p.
111). Sob esta teoria, TLTs são instabilidades elétricas - microataques - que
ocorrem dentro dos lobos temporais de indivíduos normais e são disparadas por
uma variedade de condições incluindo estresse físico e mental (como aflição,
fadiga, ansiedade, hipoglicemia, ou hipoxia), comportamento ritualizado,
padrões sonoros altos e rítmicos tais como canto, palmas ou cânticos, ou a
ingestão de certas substâncias químicas. TLTs produzem sentimentos de
significação, convicção e redução da ansiedade, e são complementadas pelos
padrões condicionados de aprendizado e reforço chamados de religião organizada.
Ainda que as
TLTs não tenham sido diretamente medidas devido a sua natureza imprevisível, há
boas evidências circunstanciais em favor de sua existência. O Dr. Persinger
nota que tecidos dos lobos temporais mostram mais instabilidade elétrica do que
qualquer outra parte do cérebro (p. 15). Além disso, a própria existência deles
em epiléticos nos dá uma boa razão para suspeitar que ocorram em indivíduos
normais também. "Não há nada de incomum em estudar a exceção para encontrar a
regra" na neurologia (p. 17), e se os TLTs comportam-se como outros fenômenos,
na população em massa eles serão distribuídos ao longo de um contínuo
estatístico. A maioria de nós teria alguns pequenos talvez uma ou duas vezes
por ano; um número menor de pessoas os teria mais frequentemente. E na ponta
mais alta e rara da escala estariam aqueles que têm explosões intensas e
freqüentes de atividade temporal - os epiléticos do lobo temporal.
Podemos fazer
outras previsões desta hipótese. Os lobos temporais contem projeções para todas
as áreas sensoriais - visão, audição, paladar e olfato, até para as regiões
vestibulares (o sentido do equilíbrio). Os TLTs mais intensos poderiam
potencialmente se espalhar para essas regiões, produzindo vívidas alucinações
sensoriais - os indivíduos afetados poderiam ver formas e paisagens brilhantes,
ouvirem vozes, experimentarem um senso de flutuar ou voar, ou experimentar tudo
isto de uma vez, dependendo de onde nos lobos temporais a instabilidade elétrica
ocorre e quão longe se espalha. Estes sintomas muitas vezes ocorrem na
epilepsia do lobo temporal. TLTs mais brandas, tais como as que acontecem na
maioria das pessoas, não produziriam estas experiências, mas seriam mais
súbitas e abstratas. Dependendo de sua extensão, alguns poderiam ser "altos
cósmicos brandos, do tipo que sentimos nas primeiras horas da manhã quando uma
verdade escondida se torna um conhecimento súbito. Outras mais intensas
evocariam as experiências-pico da vida, e determiná-la logo após. Elas
envolveriam conversões religiosas, rededicações, e comunhões pessoais com Deus"
(Persinger 1987, p.
16). Como todos os TLTs, eles seriam seguidos por marcadas reduções na
ansiedade e expectativas positivas para o futuro. Em qualquer caso, não há
diferença fundamental entre os ataques dos epiléticos do lobo temporal e os
estalos sentidos pelas pessoas normais - a diferença é uma questão de grau, não
de tipo.
Suporte empírico
para esta hipótese vem na forma de experimentos conduzidos pelo próprio Dr.
Persinger. Não podemos prever estalos naturais no lobo temporal, então é
difícil medir precisamente os seus efeitos - mas e se pudéssemos produzir
artificiais, sob demanda?
Isto
é exatamente o que o Dr. Persinger tem feito, ao construir o que alguns
chamaram de o "capacete de Deus". É um capacete normal de motocicleta,
encaixado com solenóides que, quando usado, produz um complexo campo magnético
projetado para interagir e estimular os lobos temporais do cérebro. Quatro em
cada cinco pessoas que se submetem a este experimento relatam sentir uma
"presença" na sala com eles, uma que indivíduos religiosos frequentemente
identificam como a de Deus (Holmes 2001, p.
28).
É claro, um
teísta pode argumentar que tudo o que descobrimos é uma forma de ativar os
mesmos canais que Deus normalmente usa para se comunicar conosco. Esta é uma
hipótese religiosa, fora do domínio da ciência, e estritamente falando não pode
ser desprovada. No entanto, existem várias considerações que pesam contra ela.
Primeiro de tudo, não é nada parcimoniosa, contém pressupostos extras que não
aumentam seu poder explanatório. Sabemos como um fato que as sensações
religiosas podem ser produzidas estimulando certas áreas do cérebro; não
sabemos como fato que tais sensações são realmente causadas por uma divindade
estimulando essas áreas. A explicação ateísta de que tais sensações surgem de
atividade normal neurológica e de nada mais é suficiente, então por que não
parar por aí? Insistir em complicar esta explicação perfeitamente suficiente
com pressupostos extras é um passo que não pode ser justificado pela evidência,
mas só pode ser suportado por compromissos preconcebidos de fé. Considere
alguém que acredita em OVNIs argumentando que sim, todas as fotos que temos de
supostos veículos espaciais são falsos, mas que aliens sim existem - eles
fabricaram as falsificações eles mesmos para nos inspirar para continuar
procurando por eles. Dito assim, o absurdo é óbvio, mas alguns teístas fariam
um argumento equivalente para Deus.
Em Segundo
lugar, a ideia de Deus se comunicando com humanos ativando caminhos específicos
no cérebro parece teologicamente problemática. Certamente o fato de que estas
sensações místicas podem ser artificialmente reproduzidas deveria ser
perturbador para o crente. Por que Deus tornaria possível que ele próprio
pudesse ser simulado? Pois o fato de Deus se comunicar conosco através de um
canal específico do cérebro deixa aberta a possibilidade de que outras causas
possam seqüestrar este canal e iludir pessoas com visões falsas que elas
genuinamente acreditam terem se originado com Deus. (isto, é claro, é
exatamente o que acontece na epilepsia do lobo temporal - de novo, ao menos que
alguém acredite que Deus está genuinamente falando para essas pessoas.) Não
pode ser considerado justo de Deus ter criado nossos cérebros de tal forma que
deixa as pessoas vulneráveis a falsas revelações indistinguíveis das genuínas,
e então condená-las por serem incapazes de dizer a diferença.
Em terceiro
lugar, e se este canal de "comunicação com Deus" está danificado? Essas
pessoas não poderiam mais ouvir a voz de Deus? E se assim for, seria justo da
parte de Deus condená-las se parassem de seguir os seus comandos simplesmente
porque não podiam mais percebê-los? Dr. Ramachandran especula sobre o tópico:
"O que aconteceria
com a personalidade do paciente - especialmente sua inclinação espiritual - se
removêssemos um naco do seu lobo temporal? Iria ele de repente parar de ter
experiências místicas e se tornar um ateu ou agnóstico? Teríamos realizado uma
'deusectomia'? (Ramachandran
1998, p. 187)
Realmente, uma
situação assim pode acontecer naturalmente. O Mal de Alzheimer, por exemplo,
tende a atacar e destruir o sistema límbico de primeira - e portanto não pode
ser coincidência que a parte de interesse religioso é um sintoma freqüente da
doença (Holmes 2001, p.
27). Por que Deus iria criar e depois causar nas pessoas uma doença que lhes
priva da capacidade de ouvi-lo e respondê-lo? Iria um indivíduo assim ser
punido por descrença na sua morte?
Um teísta pode
argumentar que a situação de um indivíduo assim não é assim tão miserável. Um
deus onipotente iria sem dúvida manter a capacidade de se comunicar com eles e
se fazer ouvir se ele assim desejar, mesmo que os lobos temporais dessa pessoa
estejam danificados. Isto é verdade, mas nos traz de volta à pergunta original:
por que criar um módulo de "comunicação com Deus" no cérebro humano em primeiro
lugar? A explicação do ateu permanece como a mais plausível: de que este módulo
cerebral é um legado evolutivo, uma parte de nossos cérebros que primeiro
evoluiu para algum propósito adaptativo desconhecido ou como um subproduto, e
que persiste hoje e produz as sensações que nossa cultura condiciona as pessoas
a interpretarem como a presença de uma divindade. Em resumo, a evidência sugere
que Deus está todo nas nossas mentes.
Parte
4: Problemas Filosóficos da Alma
A evidência da
neurociência coloca a alma como, no mínimo, desnecessária para explicar os
processos mentais, e no pior caso fortemente incompatível com o fato observado
ad mutabilidade do eu. No entanto, há vários argumentos adicionais que dão peso
às evidências contra esta doutrina teísta.
O primeiro deles
é um muito antigo: como, exatamente, uma alma imaterial interage com um cérebro
e um corpo material? Que força ou influência casual ela exerce, e através de
que mecanismo?
Este argumento é
parte de outro mais amplo contra o teísmo, no caso o de que muito de seus
termos cruciais tem sido indefinidos. Dizer que algo é "espiritual" ou
"imaterial" não explica o que ela é, mas sim apenas o que não é; tudo que isso
quer dizer é que um objeto imaterial não sente nem exerce quaisquer das forças
que agem sobre a matéria. A alma, presume-se, não é afetada pro ímãs ou cargas
elétricas, não é atraída por forças gravitacionais, e não é unificada pelas
forças nucleares fortes e fracas. Átomos e outras partículas passam através
dela sem serem afetados ou afetando-a, se ela de fato ocupa um lugar no espaço.
Não está conectada ao cérebro ou influenciada pelos processos eletroquímicos
que lá ocorrem. Como ela pode então possivelmente receber informação sensorial do
cérebro, ou afetá-lo em troca? O que exatamente ela faz que confira consciência
sobre nós, e como esta influência é transmitida ao cérebro?
Responder a estas
questões com "um milagre" é com certeza insatisfatório. Se evocarmos milagres,
não avançamos da estaca zero; não respondemos a pergunta, meramente a movemos
além do domínio do solúvel. Milagres, por definição, são aquelas coisas que não
podem ser testadas, explicadas ou descritas mais a fundo - se não o fossem, não
seriam milagres, mas sim eventos normais apropriados para o estudo científico,
os quais nos trariam de volta à pergunta original de como a alma interage com o
cérebro. Em essência, afirmações de milagres são uma cortina de fumaça para
proteger declarações insatisfatórias de serem questionadas mais a fundo.
Existem duas
alternativas à essa visão, as quais são chamadas de dualismo substancial.
Postula-se que a alma existe, mas que ela também é feita de matéria - a posição
dos antigos filósofos atomistas gregos. No entanto, isto implica que a alma
possa ser destruída, e que a consciência irá terminar com a dissolução física
do corpo perante a morte. Esta visão é inaceitável para a maioria dos teístas
modernos. Alternativamente, pode-se especular, como o faz alguns filósofos, que
uma alma imaterial existe, mas que ela não exerce e nem pode exercer qualquer
força causal sobre o corpo. Esta posição é chamada de epifenomenalismo. Nesta
visão, a alma é como uma sombra seguindo as pegadas de uma pessoa, ou como a
nuvem de vapor produzida pelo apito de uma locomotiva - trilhando junto com o
corpo, mas separado deste.
Epifenomenalismo
também pareceria ser uma alternativa inaceitável à maioria dos teístas, porque
ela necessariamente nega o livre arbítrio. De acordo com m epifenomenalista, se
eu sinto fome e vou para a cozinha pra pegar um petisco, posso acreditar que eu
fui para a cozinha porque eu estava com fome, mas eu estaria errado. Meu
corpo tornou-se faminto e decidiu pegar um petisco por sua própria vontade, e
minha mente causalmente impotente acredita, incorretamente, que ela iniciou a
ação. Na sua essência, sob o epifenomenalismo a própria consciência em si é uma
falácia post hoc ergo propter hoc que dura a vida inteira. Tão absurda
quanto parece, isto é o que o epifenomenalismo necessariamente implica.
Mas se nenhuma
destas alternativas serve, ficamos com o dilema de como uma alma imaterial pode
de alguma forma alterar o estado do corpo. Como não existe nenhuma resolução
adequada para o problema, proponho que o materialismo estrito é a única
possibilidade restante que adequadamente explica os fatos. Sob esta visão, não
precisamos de nenhum objeto imaterial externo afetando meu cérebro através de algum
mecanismo misterioso e indefinido; em vez disso, meu cérebro é um sistema
auto-ajustado e causalmente potente sobre sua própria operação, uma teia de
ciclos de realimentação que alcançou um ponto crítico de complexidade em que
percebe seu próprio funcionamento. Esta proposta lida com todas as evidências
disponíveis de uma forma parcimoniosa e fornece uma genuína explicação para os
fenômenos mentais.
Um segundo
argumento contra a tradicional concepção dualista da alma vem a seguir. Como se
pode dizer que uma pessoa tem somente uma alma imutável, quando as pessoas
estão constantemente mudando ao longo de toda a sua vida? Em outras palavras,
em que sentido um velho no seu leito de morte é o mesmo indivíduo que era na
sua infância? Os interesses, desejos, crenças, visões de mundo e valores de uma
pessoa frequentemente, se não inevitavelmente, mudam ao longo do curso de sua
vida. Muito poucas pessoas, se é que existem, poderiam afirmar com confiança
que elas são exatamente as mesmas pessoas que eram há dez anos atrás, ou a
aquela que serão daqui a dez anos. Quando uma pessoa morrer na velhice, Deus
irá julgá-lo responsável por um chiclete que ele roubou quando tinha oito ou
nove anos de idade, mesmo que esse homem tenha aprendido tanto e seus valores
tenham amadurecido a tal ponto que ele não mais sonharia em fazer isso de novo,
mesmo que as partes de sua alma que lhe fizeram cometer aquele ato tenham há
muito tempo deixado de existir?
Como
se tem registrado ter sido dito por Heráclito, não se pode pisar duas vezes no
mesmo rio. Quando uma pessoa muda a tal ponto que seu eu passado é como um
estranho a ela, é realmente justo julgá-la responsável pelas ações daquele eu?
Ou temos múltiplas almas ao longo de uma vida, cada uma das quais será julgada
independentemente? Mas as pessoas raramente mudam em flashes estilo Damascus
Road, instantaneamente saltando de um eu para o outro; em vez disso, as
mudanças na silhueta e na consciência de alguém quase sempre se acumulam
lentamente umas sobre as outras, e não podem ser localizadas em um simples
ponto no tempo. Precisaríamos de um numero infinito de almas discretas para
acomodar uma coisa assim, e isto é absurdo.
A consideração
final se relaciona de volta ao argumento da unidade mente-cérebro, apresentada
na Parte 2 deste
ensaio. O fato que um dano cerebral pode alterar o eu implica fortemente que o
cérebro é o verdadeiro assento do eu. Alguns teístas rejeitam isto,
argumentando que a natureza verdadeira da alma é imutável, mas que se comunica
com o corpo somente através do cérebro, e que dano cerebral pode distorcer essa
comunicação e fazer com que uma pessoa aja em formas não condizentes com a
verdadeira natureza de suas almas.
Mas um argumento
assim somente levanta mais perguntas. Por exemplo, por que Deus iria criar uma
natureza imutável para a alma e então torná-la sujeita à natureza maleável e
imperfeita de um corpo material e falível, e julgá-la pelas ações cometidas por
aquele corpo? Por que sequer precisamos desses corpos, se no melhor dos casos
eles podem apenas permitir que a natureza real da alma brilhe através deles
inalterada, e no pior dos casos obscurecê-la? Dá pra gente acreditar que, por
exemplo, numa pessoa com síndrome de Capgras, sua alma reconhece seus pais e
amigos e quer lhes responder com amor e afeição, mas é impedida de assim
fazê-lo pelo cérebro doente que em vez disso instrui seu corpo para que
agressivamente lhes denuncie como impostores? Isto levanta a questão de em que
sentido se pode dizer que a alma sequer controla o corpo. Mesmo em pessoas sem
distúrbios neurológicos, os desejos de um corpo material falho podem compelir a
alma a cometer pecados: ganância, gula, luxúria, ira. Sob o materialismo tais
condições fazem sentido perfeitamente - nós somos nossos corpos -, mas
nenhum teísta até hoje explicou o objetivo de Deus em aprisionar nossas almas
em corpos e as considerando responsáveis pelas irracionalidades incontroláveis
desses corpos. Como o evangelho cristão de Mateus diz no verso 26:41, "o
espírito em verdade está pronto, mas a carne é fraca". Exatamente.
Parte 5: Os Mistérios da Consciência e o Deus das Lacunas
Apesar de tudo
que aprendemos através da ciência sobre como o cérebro funciona, existe um
número de questões fundamentais sobre a mente cujas respostas ainda nos
intrigam. Uma diz respeito às qualidades subjetivas da experiência sensorial, o
que alguns filósofos chamam de qualia. Outra é o enigma do livre arbítrio -
somos realmente responsáveis por nossos próprios atos ou controlados por forças
além de nós mesmos? A terceira é a natureza da própria consciência em si -
sabemos que sabemos de coisas, mas quem é o sabedor? Nesta seção deste ensaio,
eu investigarei cada uma destas questões, argumentando que ainda que questões
significativas permaneçam em cada caso, todos estes fenômenos podem ser
adequadamente explicados por uma visão materialista da mente, e nenhuma nos dá
qualquer boa razão para acreditar que exista uma alma imaterial, separada do
funcionamento do cérebro, que guie nossas ações.
Qualia
Uma das verdades
mais básicas sobre os seres humanos é a riqueza da nossa experiência.
Não somos robôs respondendo inconscientemente a estímulos externos; em vez
disso, habitamos um mundo interno vívido de percepção sensorial. Estas
dimensões internas e subjetivas da experiência são chamadas de qualia,
as percepções daquilo que sentimos de algo. (Feinberg 2001, p.
145). As brilhantes cores de um arco-íris, a rajada de um vento frio no rosto
ou o prazer de um banho quente, a dureza da lixa ou a suavidade da seda, o
gosto da pimenta ou do chocolate, o glissando de uma orquestra ou o arrepio
doloroso de unhas sobre um quadro-negro, o arrepio gelado de medo ou o brilho
quente da felicidade - todas essas coisas são qualias. Em cada caso, não é a
mera descrição da experiência, mas o "sentir" interno da experiência em si que
é a qualia. A essência da qualia é impossível de transmitir em palavras; não se
pode explicar o som do dó maior para um surdo, nem descrever a cor vermelha
para alguém cego de nascença.
A existência da
qualia tem sido usada por alguns filósofos dualistas para argumentar que uma
explicação estritamente materialista da mente não pode estar correta. A defesa
mais bem conhecida desta posição é provavelmente Jackson 1986, que
propôs um experimento mental, hoje clássico, que deu origem ao que tem sido
chamado de argumento do conhecimento para o dualismo.
Neste experimento,
Jackson propõe que uma pessoa (arbitrariamente se assume ser uma mulher,
chamada Mary) tenha nascido e crescido num lar onde tudo é preto e branco. As
paredes são pintadas de preto e branco, ela tem livros em preto e branco para
ler, e tem TV em preto e branco para aprender sobre o mundo externo. Por toda a
sua vida, ela nunca se aventurou a sair de casa e assim nunca viu cor. No
entanto, ela ouve sobre o conceito de cor e está intrigada, e tem por
missão entender o que é a cor.
Mary estuda
Física, Química e Neurociência, aprendendo tudo que se sabe sobre a base
biológica da visão a cores. Após exaustivos estudos, ela aprende todo e cada
fato relevante sobre como os seres humanos vêem cores, produzindo talvez um
abrangente gráfico mostrando exatamente como a sensação de cor é produzida no
cérebro - desde o tempo que a luz atinge a retina até o momento em que a
sensação de cor é conscientemente percebida, detalhando cada neurônio envolvido
disparando, cada neurotransmissor liberado e cada reação eletroquímica no
caminho. Sob uma concepção materialista da mente, Mary agora sabe tudo que há
para se saber sobre as cores.
Imagine então
que, após completar seus estudos, Mary pisa para fora de sua casa preta e
branca pela primeira vez na vida e vê uma rosa vermelha. Ela a pega e a vê,
maravilhada. Ela percebeu que agora sim ela entende o que é a cor, numa forma
que ela não entendia antes; além disso, ela percebeu que, apesar da abrangência
de seu diagrama, ele era de certa forma incompleto. Existe mais sobre a sensação
de "vermelho" do que um mapa neural pode explicar. Existe uma dimensão interna
e subjetiva para a experiência - o quale do vermelho - que nenhum exame
externo do cérebro pode jamais capturar.
Este é o cerne
do argumento do conhecimento. Se nossa neurocientista imaginária soubesse todos
os fatos físicos relacionados à percepção cerebral da cor, mas mesmo assim
ainda pudesse adquirir novos conhecimentos ao ter ela mesma visto uma cor pela
primeira vez, então se conclui que deve haver fatos sobre a mente que não são
fatos físicos - em outras palavras, alguma versão do dualismo deve ser verdade.
Como um
materialista pode responder ao argumento do conhecimento? A maneira mais fácil
seria simplesmente negar a plausibilidade do cenário de Jackson, e afirmar que
qualquer entendimento completo do funcionamento físico do cérebro
necessariamente incluiria todos os aspectos da percepção sensorial, incluindo a
qualia. Em outras palavras, esta posição afirma que uma pessoa que nunca vira a
cor vermelha em sua vida, após completar um estudo de como o cérebro percebe
cores, necessariamente conseguiria imaginar o vermelho. Ainda que pareça
incrível, isso não prevê nenhuma contradição lógica.
No entanto, eu
não acredito que esta posição esteja correta. Há uma explicação mais plausível
para por que o argumento do conhecimento não serve para derrubar o
materialismo. Para ver isto, precisamos de uma versão levemente modificada do experimento
mental original de Jackson. Imagine uma situação similar, exceto que nossa
pesquisadora hipotética dessa vez toma por objetivo estudar o jogo de tênis, em
vez de a neurofisiologia da percepção das cores. Imagine que esta pesquisadora
não só memoriza as regras do tênis, mas aprende tudo sobre a física de como se
joga o jogo, até a velocidade e orientação corretas da raquete de tênis para
devolver um saque que chega a certo ângulo e velocidade. Finalmente, imagine
que após completar seus estudos, esta pesquisadora é enviada para uma quadra
para jogar seu primeiro jogo real de tênis, contra um tenista experiente - e
perde de lavada, como preveríamos. Imagine ainda que com prática, o tênis desta
pesquisadora gradualmente melhoraria, apesar do fato que seu conhecimento
fatual de jogar o jogo não aumenta. Dever-se-ia, portanto, concluir que o
esporte do tênis não é reduzível às regras do jogo e à física da partida?
Seríamos forçados a concluir que há alguma "essência do tênis" misteriosa,
não-física que nunca pode ser derivada do mero estudo das regras físicas do
jogo?
Uma conclusão
assim seria totalmente absurda. A resolução correta a este aparente paradoxo é
perceber que há mais do que um tipo de conhecimento. Há o conhecimento proposicional
- conhecimento dos fatos - mas há também o conhecimento procedural, o
tipo de técnica experimental que vem somente através da prática. Os dois não
são equivalentes, como o exemplo acima mostra: mero conhecimento proposicional
de como jogar tênis não se iguala ao conhecimento procedural que confere
técnica ao tênis. De forma similar, quando Mary vê o vermelho pela primeira
vez, ela não adquire um novo conhecimento proposicional; ela não aprende nenhum
fato novo que já não soubesse antes. O que ela ganha sim é uma nova habilidade:
a habilidade de imaginar o quale do vermelho. Qualias em geral são portanto um
tipo de conhecimento procedural, e pela natureza de como o cérebro funciona,
este tipo de conhecimento pode somente ser adquirido através da experiência
própria. No entanto, eles ainda são um fenômeno predominantemente físico.
Para fornecer um
maior suporte a esta posição, podemos mais uma vez lançar mão do argumento da
unidade mente-cérebro. Neste caso em particular, o argumento toma a seguinte
forma: podemos saber que qualias não são entidades não-físicas porque a
percepção de qualias pode ser alterada, alterando-se fisicamente o cérebro.
Por exemplo,
existe uma condição chamada assimbolia à dor, a qual pode ser produzida
por lesão cerebral. Pacientes com essa condição não perdem nenhuma percepção
sensorial - elas podem dizer a diferença entre calor, frio, toque e várias
outras sensações - mas o que elas parecem perder é a resposta emocional à dor (Feinberg 2001, p.
4). Esta condição pode ser induzida deliberadamente, removendo cirurgicamente
conexões nervosas no cérebro, para tratar pacientes que experimentam dor
incurável e num estado de miséria e depressão profundas. Após a operação, elas
ficam invariavelmente muito mais alegres, e dizem coisas como "a dor é a mesma,
mas me sinto muito melhor agora" (Damasio 1994, p.
266). O que estas pessoas perderam senão a qualia de sua "dor"?
Outra condição
que demonstra a ligação entre qualia e o cérebro é conhecida como sinestesia.
Em pessoas com essa condição, os sentidos têm "linhas cruzadas" - sensações
normalmente experimentadas em somente uma modalidade sensorial são sentidas por
modalidades adicionais também. Por exemplo, muitos sinestetas vêem cores sempre
que ouvem sons; quando ouvem música, eles percebem uma contínua explosão de
cores, como fogos de artifício no seu olho da mente. Outros lêem em cores,
percebendo cada letra, número ou símbolo que vêem como tendo uma cor distinta e
vívida associada a elas, independente da cor real impressa. Outros ainda podem
sentir o gosto de formatos, experimentando sensações de textura e formato
associadas a certo sabor (Ramachandran and
Hubbard 2003). Em um caso recentemente registrado,
uma música profissional identificada como E. S. tem uma versão de sinestesia na
qual intervalos tonais no som que ela ouve são consistentemente ligados a
gostos específicos; ela usa essa habilidade para executar a tarefa complexa de
identificação de intervalo tonal na sua música significantemente mais rápido do
que os músicos não sinestetas podem (Beeli et al.
2005).
Qual é a causa
deste cruzamento de qualias? Uma hipótese é que somos todos sinestetas
no nascimento, mas à medida que a maioria de nós cresce, as conexões neurais
extras entre os sentidos são suprimidas. Sinestetas adultos seriam meramente
aquelas pessoas que mantém essas conexões na maturidade. Sendo isto correto ou
não, um fato é certo: a sinestesia pode ser hereditária. A condição ocorre em
famílias; aproximadamente um terço dos sinestetas registra ter um membro da
família que também possui a condição (veja http://www.synaesthesia.uwaterloo.ca/genetics.htm). Isto
pareceria difícil para uma teoria não-materialista da qualia explicar. As almas
são hereditárias? A condição da alma dos seus pais influencia a sua condição?
Como os exemplos
acima mostram, as qualias são conectadas à estrutura do cérebro, e podem ser
alteradas por mudanças a essa estrutura. Portanto, temos que as qualias têm uma
base material. Qualias puramente não-físicas, existindo inteiramente em uma
mente não-física, não poderiam ser tão afetadas.
Claro, isto não
explica como certa entrada sensorial está ligada a uma qualia específica (por
que o vermelho parece vermelho e não azul ou verde, ou mais ainda, por que não
se "vê" agudo, rangente ou amargo?), o que eu chamo de o problema do
mapeamento. A resposta a isto é desconhecida hoje. Pode ser que nunca
saibamos; talvez, mente alguma pode sequer se conceitualizar dessa forma. No
entanto, também não está fora do domínio da possibilidade que avanços futuros
em entendimento possam resolver isto, e eu continuo otimista. (ainda que a
ideia de explicar como uma série de disparos neurais produz a sensação
subjetiva do "vermelho" possa parecer incrível, o entendimento cientifico do
cérebro está realmente na sua infância. Provavelmente não possuímos ainda a
plataforma correta para sequer saber que perguntas fazer.). No entanto, em
qualquer caso, não há razão para introduzir a ideia de uma alma. Nenhuma
hipótese dualista realmente explica a qualia de uma forma que a hipótese
materialista não possa. Em vez disso, o dualismo apenas enlameia as águas,
adicionando níveis adicionais de complexidade e mistério sem na verdade
explicar coisa alguma.
Livre Arbítrio
A próxima
dificuldade que uma plataforma materialista da mente deve confrontar é o
problema do livre arbítrio. São as nossas ações em algum sentido "com a gente",
ou somos meramente peões de forças além do nosso controle? A resposta a essa
questão, seja ela qual for, é altamente significante, porque tem repercussões
além dos campos rarefeitos da neurologia ou filosofia. Ou seja, somente num
universo onde há livre arbítrio é que a responsabilidade moral pode existir.
Não faz sentido dizer que o que uma pessoa fez foi errado ao menos que ela
pudesse ter escolhido agir diferente.
Neste ponto,
advogados do dualismo muitas vezes apresentam o que vêem como um dilema insuperável
para qualquer concepção materialista do livre arbítrio. Numa visão de mundo
materialista, tudo que existe é no fim das contas matéria e energia, ambos
obedecendo a um conjunto de leis físicas precisas. Se não há nada sobrenatural
que possa desafiar essas leis, então toda interação que ocorre, em todo nível,
é no fim das contas reduzível a elas. A razão pela qual sinto certa emoção ou
desejo é por causa de uma série de neurônios disparando em meu cérebro; a razão
pela qual esses neurônios particulares dispararam e outros não pode ser
explicada em termos de química e eletromagnetismo; esses fatores podem por sua
vez serem explicados como um resultado do preciso arranjo de moléculas dentro
desses neurônios; e assim por diante.
Mas isto parece
apresentar um problema. Afinal de contas, o arranjo de moléculas no meu cérebro
pode ser explicado ao se postular que ele evoluiu para esse estado a partir de
um estado anterior em acordo com as leis físicas mencionadas acima; esse estado
foi por sua vez ditado por um estado ainda anterior; e assim por diante. Se
estendermos esta cadeia casual para trás o bastante, parecemos chegar à
conclusão de que cada ação que eu tomo durante a minha vida foi predeterminada
por causas que estavam em efeito antes de eu vir a existir. Estenda este
argumento ainda mais e aparentemente chegamos à conclusão de que tudo que
aconteceria na história do universo, incluindo cada evento em cada uma de
nossas vidas, foi inalteravelmente fixado no momento do Big Bang. A aparente
conseqüência é que essa escolha é uma ilusão - não houve e não há possibilidade
de as coisas acontecerem de qualquer outro jeito senão o jeito em que
aconteceram.
Esta posição,
que é conhecida como determinismo duro, é impalatável para muitas
pessoas, e dá pra se entender. A maioria das pessoas - e eu admito que me
incluo nesta categoria - valorizam a ideia de que o futuro não é arranjado, que
podemos exercer algum controle sobre ele por nossas escolhas; e o mais
importante, que as nossas decisões são de alguma forma nossas e não
simplesmente o resultado de uma cadeia mecanicista de causas que se estendem
além do início da nossa existência individual. É claro, apenas desgostarmos da
ideia do determinismo duro não necessariamente prova que ela é falsa. Mas uma
visão de mundo que poderia acomodar a ideia de livre arbítrio e
responsabilidade moral seria muito mais atraente para muitas pessoas, e
advogados do dualismo teísta muitas vezes afirmam que a visão de mundo deles é
assim.
Antes de
explicar esta afirmação, no entanto, será beneficial recuar um pouco e examinar
o próprio conceito de livre arbítrio. A questão chave é esta: o que significa
dizer que uma decisão foi de livre arbítrio? Muitos diriam que se nossas
decisões são completamente determinadas por causas anteriores, elas não são
livres e assim não podemos ser considerados moralmente responsáveis por elas.
Mas se as nossas decisões não são completamente determinadas por causas
passadas, então como isto é um progresso? Se certa ação não foi determinada por
causas passadas, isso só pode significar que ela aconteceu aleatoriamente. Esta
posição, conhecida como libertarianismo (ainda que não tenha relação com
a filosofia política do mesmo nome), não parece buscar a responsabilidade moral
que o determinismo duro nega. Afinal de contas, se nossas decisões são
aleatórias, isso significa que acontecem por razão nenhuma, e novamente não se
pode dizer que temos qualquer controle sobre elas, não mais que podemos
controlar o resultado de um lançamento de um par de dados.
Existe
uma lacuna entre o determinismo e o aleatório onde o livre arbítrio possa se
encaixar? Mas que terceira opção possa existir além dessas duas? Ou um evento
foi causado ou não foi; isso certamente parece esgotar todas as possibilidades.
Se nossas decisões não são nem causadas nem não-causadas, que outra opção há?
Este dilema parece sugerir, olhando por cima, que o próprio conceito de livre
arbítrio possa ser incoerente.
No
entanto, eu acredito que existe uma solução a este paradoxo que seja compatível
com o materialismo. Para ver como isto é possível, considere um exercício de
pensamento que chamo de "a máquina de predição". A máquina de predição é uma
construção que é informada de uma escolha que você está atualmente encarando e
leva em conta toda a informação de contexto necessária, até o nível (e
incluindo) o estado exato de cada partícula subatômica dentro do seu cérebro,
para predizer infalivelmente qual será a sua decisão. Se as suas decisões não
são de livre arbítrio e são o resultado de uma cadeia mecanicista de causa e
efeito, é logicamente possível construir uma máquina de predição funcional.
Reciprocamente, se é logicamente impossível construir uma máquina de predição,
então o determinismo duro tem que ser falsa.
Ainda que este
conceito sozinho não pareça iluminador, ele pode ser usado como a fundação para
uma poderosa compreensão. Usando essa fundação, irei avançar uma conclusão que
pode parecer audaciosa. Para fins de clareza, declararei a conclusão antes de
explicar o raciocínio que levou a ela: é logicamente impossível construir
uma máquina de predição, pelo menos em qualquer mundo que obedeça às mesmas
leis físicas que o nosso obedece.
Por que isto?
Considere o clássico experimento chamado "O demônio de Maxwell".
O demônio de Maxwell é um pequenino ser que controla um portão do tamanho de um
átomo entre dois reservatórios de gás de mesma temperatura. Quando o demônio vê
um átomo levemente mais rápido (i.e. mais quente) se aproximando de um lado,
ele abre o portão para deixá-lo passar; quando ele vê um átomo levemente mais
lento (e portanto mais frio) se aproximando do outro lado, ele também o deixa
passar. Caso contrário, ele mantém no mesmo lado qualquer átomo que se
aproxime. Desta forma, o demônio poderia aparentemente criar um diferencial de
temperatura entre os dois lados - revertendo assim a entropia e criando energia
útil - sem fazer qualquer trabalho. Isto é uma aparente violação da Segunda Lei
da Termodinâmica.
A solução para
este paradoxo não é filosófica, e sim prática. Se o demônio de Maxwell fosse
onisciente e pudesse perceber a temperatura de cada partícula de gás que se
aproxime sem ter que interagir com ela de forma alguma, então ele poderia
realmente violar a Segunda Lei da Termodinâmica. Mas em nosso mundo, isto é
impossível. A única forma de dizer o quão rapidamente um átomo vizinho está se
movendo é rebater um próton nele, um processo ao qual normalmente nos referimos
como 'ver', e acontece que o aumento em entropia que tal observação implica
contrabalanceia qualquer diminuição de entropia que o processo de resolver
átomos poderia produzir, fazendo com o que o sistema como um todo obedeça às
leis da termodinâmica.
Uma razão
similar explica por que as máquinas de predição são impossíveis. A razão pela
qual uma máquina assim não pode ser construída é que, no mundo real, predição
requer medição, medição requer interação, e interação imprevisivelmente
muda o sistema com o qual interage. Estas perturbações inevitáveis tornam
impossível a predição acurada das ações de livre arbítrio de uma pessoa.
Como um exemplo
mais concreto, imagine que apresentaram a você um teste simples de escolha
forçada. Digamos, um cartão vermelho e um azul dispostos lado a lado sobre uma
mesa, e você deve escolher e pegar um deles. Para provar que o livre arbítrio
não existe e que as suas decisões são meramente o resultado de leis
mecanicistas de causa-e-efeito, você está amarrado à máquina de predição antes
de fazê-lo, e essa máquina tem a tarefa de determinar de antemão qual carta
você escolherá. Avaliando as características relevantes de cada partícula
subatômica na sua cabeça, ela faz uma predição sobre qual será a sua escolha.
Mas o mero ato
de fazer essa predição a invalida. Ao medir o estado do seu cérebro, a máquina
de predição mudou esse estado, e sua predição pode agora acontecer de estar errada.
(isto pode ser conceituado em termos mecanicistas - ao sondar os níveis
relativos de neurotransmissores, potenciais elétricos de neurônios chave, e
assim por diante, pode ter mudado estas características e alterado portanto a
sua escolha - ou pode ser conceituado em termos de mais alto nível - sabendo
que a máquina está tentando te adivinhar, você altera a sua escolha. De
qualquer forma, acaba sendo a mesma coisa.). A única forma que garante que a
predição seja precisa é rodar a máquina de predição novamente; mas ao fazê-lo,
esse estado é modificado novamente, e assim a segunda predição é da mesma forma
invalidada. Ela ainda pode estar correta, mas não pode mais ser garantida que
esteja.
A conseqüência deve
ser óbvia. Não importa quantas vezes a máquina de predição seja executada,
nunca produzirá uma predição cuja precisão possa ser garantida. Isto nada tem a
ver com os limites práticos dos recursos dos construtores de máquinas. Enquanto
tiver que obedecer às leis da física, predição acurada e infalível é
impossível, não importa quanta informação de contexto ela possua. Uma máquina
assim pode fazer predições que estejam muitas vezes corretas, mas não
pode fazer predições que estejam sempre corretas. Resumindo, o
comportamento humano é previsível num nível estatístico, mas não em num nível
individual. E isto é um componente central do que é normalmente dito pelo
entendimento comum do termo "livre arbítrio".
Ao propor esta
definição, eu não procuro postular um terceiro tipo de ação, uma que não seja nem
causada nem não-causada. Decisões humanas têm causas (ou motivações, se
preferir); isto deveria ser óbvio. Temos boas razoes para acreditar que a base
da mente é materialista, o que se for verdade significa que o livre arbítrio
libertário não pode existir. Eu vejo isto como uma coisa boa, porque em minha
opinião o libertarianismo destrói a possibilidade da responsabilidade moral
mais ainda do que o determinismo duro. Mesmo num mundo de determinismo duro,
existe a possibilidade que as pessoas que ferem outras podem ser reabilitadas
através da punição, mas num mundo onde as ações humanas são fundamentalmente
aleatórias, não há razão alguma para acreditar que tal tratamento iria
funcionar.
Como
eu disse, eu não estou procurando forçar uma terceira alternativa entre as
opções de as decisões serem causadas e serem não-causadas. Em vez disso, eu
argumento que a opção que as decisões são causadas deveriam na verdade ser
apropriadamente vistas como duas opções separadas - causadas e previsíveis,
e causadas mas imprevisíveis. Argumento ainda que o determinismo duro devesse
ser visto como equivalente ao primeiro, enquanto que o último é o que deveria
significar o termo livre arbítrio. Se as decisões não podem, mesmo por
princípio, ser preditas antes do tempo, eu sustento que é inútil rotulá-las como
determinísticas no sentido puro.
Neste ponto,
algumas clarificações adicionais precisam ser feitas. Ainda que a
imprevisibilidade seja um componente necessário do livre arbítrio, não é um
suficiente. Afinal, se o argumento acima está correto, então predizer
infalivelmente o comportamento de qualquer sistema suficientemente
complexo é impossível, pelas mesmas razoes. Mas é absurdo dizer que os dados
possuem livre arbítrio, só porque seu comportamento é imprevisível. Em vez
disso, eu argumento que existem outras condições que também precisam ser satisfeitas
para uma decisão ser considerada livre, todas as quais acredito serem
firmemente enraizadas no senso comum. Além de serem causadas porém
imprevisíveis, uma decisão de livre-arbitrio deve ser:
- Auto-dirigida.
Uma ação é livre somente se é executada por um agente que conscientemente
pretendia que resultasse numa forma específica.
- Não coagida.
Uma decisão não é livre se uma força externa irresistível foi aplicada a
ela por outro agente com o objetivo de influenciá-la a um resultado
específico.
- Informada.
Uma decisão não é livre se é feita em ignorância das conseqüências prováveis.
Acredito que
esta definição se encaixa no uso comum do livre arbítrio: atos executados por
uma pessoa consciente que surgem da natureza dessa pessoa, que tem causas e
motivações, que são potencialmente em grande parte previsíveis, mas não
completamente previsíveis independente de quanta informação do contexto se possua.
Num mundo materialista, este tipo de livre arbítrio é eminentemente possível, e
de forma alguma nega a responsabilidade moral individual.
Como o livre
arbítrio pôde chegar a existir? De longe a resposta mais plausível envolve os
processos evolutivos que criaram a espécie humana. Afinal de contas, o livre
arbítrio é uma propriedade altamente adaptativa. Uma criatura viva sem livre
arbítrio, ou alguma capacidade equivalente de tomada de decisão, seria
necessariamente guiada puramente por instinto pré-programado. Isto pode
funcionar somente enquanto essa criatura nunca encontre nada além do alcance
limitado de situações com as quais é programada para lidar, mas se é encarada
com uma situação que não se encaixa nos pressupostos de sua programação, será
incapaz de responder efetivamente e pode muito bem morrer. (para um excelente
exemplo de o quanto a programação instintiva pode produzir uma criatura incapaz
de lidar com situações novas, considere a vespa sphex).
Em contraste, um ser vivo com livre arbítrio teria uma excelente chance de
responder apropriadamente no importa qual tipo de situação encare, em vez de se
tornar inerte ou entrar um loop infinito como faz a vespa sphex. Isto poderia ser
uma poderosa vantagem seletiva que a evolução favoreceria para os seres vivos,
como os ancestrais dos humanos, que habitavam ambientes complexos e
imprevisíveis.
Consciência
No entanto, o
requisito de que atos dotados de livre-arbítrio só podem ser feitos por um
agente consciente nos traz ao enigma final e possivelmente o mais difícil de
todos - a fonte da consciência em si. Como é que somos conscientes de nós
mesmos como indivíduos autônomos? Quem ou o que é o observador, o "eu", que
reside dentro de cada uma de nossas mentes e que faz a percepção real? Como é
possível que nos possamos "afastar" e examinar nosso próprio funcionamento
mental com um cérebro feito de neurônios, ainda que nenhum neurônio individual possua
tal habilidade?
Ainda que uma
resposta completa a esta pergunta esteja além do escopo deste ensaio, e
realmente além do escopo do conhecimento humano desta época, uma coisa é certa:
os teístas que afirmam que é logicamente impossível que a consciência possa
surgir da não-consciência, ou que fazem afirmações semelhantes, estão errados.
Simplesmente porque nenhuma célula nervosa ou reação eletroquímica individual
possui a propriedade da consciência, não se pode concluir que um grande número
delas, arranjadas corretamente, não possa possuir esta propriedade. Da
mesmíssima forma, só porque nenhum tijolo individual possui a propriedade de
ser uma casa, não se segue que nenhum arranjo de muitos tijolos também não pode
possuir esta propriedade. Existem muitos sistemas onde o arranjo e a interação
de componentes simples pode produzir propriedades e comportamentos novos e
complexos, que nenhum componente individual tem.
Este é o
conceito do campo da teoria da complexidade, chamado emergência.
Fenômenos emergentes são aqueles que surgem espontaneamente da interação de
componentes mais simples, produzindo novos níveis de complexidade com novas
propriedades que não existem em nenhum dos componentes tomados individualmente.
Por exemplo, as propriedades de uma proteína emergem da interação dos
aminoácidos que a formam. As propriedades de uma revoada de pássaros ou de um
cardume emergem do comportamento dos animais individuais neles. As propriedades
de um mercado de ações emergem das ações dos especuladores individuais que o
forma. Em todos os casos, estudar o comportamento dos componentes individuais
do sistema isoladamente provavelmente não fornecerá conhecimento sobre a origem
de comportamentos do sistema como um todo, e o comportamento exibido por cada
componente individual é muito mais simples do que o comportamento do sistema.
Consciência é quase que certamente deste mesmo tipo de fenômeno, e como tal,
qualquer tentativa de isolar uma única de fonte ou ponto de origem para ela
está muito provavelmente condenada a falhar. Todo o nosso entendimento da
neurociência pesa contra a possibilidade de um "teatro cartesiano", um centro
único de consciência no cérebro onde todos os fluxos discrepantes de
processamento de informação se reúnem como um filme rodando numa tela. Em vez
disso, a consciência é muito provavelmente uma propriedade emergente do
agrupamento inteiro dos neurônios no cérebro, tomados como um todo.
O
Deus das Lacunas
É claro, isto não
explica com certeza como a consciência surge. No entanto, isto nunca foi minha
intenção. Estas questões estão no coração do que significa ser humano, e
possivelmente dos mistérios mais fundamentais que jamais iremos confrontar.
Elas têm sido estudadas e debatidas por cientistas e filósofos por séculos e
com toda certeza continuarão a ser estudadas por séculos à frente. Eu não
afirmo ter explicado em riqueza de detalhes como tais coisas vêm a ser. Em vez
disso, é meu objetivo mostrar que estes fenômenos são compatíveis com
uma visão de mundo ateísta - de que temos razão para acreditar que elas possam
existir em um mundo material, mesmo que não saibamos exatamente como. Neste
respeito, materialismo e dualismo estão em igualdade. Uma vez estabelecidos,
argumentos adicionais como o da unidade mente-cérebro deslocam a balança a
favor do materialismo. Qualia, livre arbítrio e consciência, misteriosas do
jeito que são, não fornecem conforto algum a hipóteses baseadas na alma.
Afinal de
contas, que melhor explicação o dualismo pode oferecer para quaisquer dessas
coisas? Se explicarmos qualia, livre arbítrio ou a consciência dizendo "a alma
os faz", o que mais sabemos além do que tínhamos no começo? Não só postular uma
alma não explica nada, como isso explicitamente descarta a possibilidade de
melhorar nosso entendimento posterior, já que fenômenos sobrenaturais por
definição não seguem regras que possamos entender. Por contraste, se ficarmos
com a visão naturalista que até então é suportada por toda a evidência disponível,
o incrível sucesso que a neurociência tem obtido até aqui em desvendar o
funcionamento da mente nos dá razão para acreditar que descobriremos ainda mais
no futuro.
Atribuir os
mistérios da mente a uma alma material é um erro natural a se fazer. Por toda a
história humana, as pessoas empregaram este tipo de raciocínio "Deus das
Lacunas": sempre que topamos com algo que não entendemos, atribuímos isto à
ação de uma força sobrenatural. Se a alma tem que ser adicionada à lista das
coisas "explicadas" por este método, então eu fico contente, porque toda outra
entidade que já estivera nessa lista foi no fim das contas mostrada como tendo
uma origem e explicação totalmente naturalísticas. O dia e a noite, a natureza
da lua e das estrelas, os ciclos das estações, a causa das doenças, os
movimentos dos planetas, o clima, a fonte de desastres como terremotos - hoje
sabemos que todas essas coisas e muito mais são fenômenos naturais, sem deuses
habitantes de lacunas sendo necessários para explicá-los. As explicações
sobrenaturais para estas coisas se derreteram sob a luz das explicações
científicas, muito mais satisfatórias, e estou confiante que a fonte da mente
irá eventualmente juntar-se a elas.
O Deus das
Lacunas era um método comum de raciocinar quando as pessoas não sabiam direito
das coisas, mas hoje nós sabemos. Nós temos uma forma real de entender o
mundo agora, uma forma melhor. Enquanto que ainda existem muitas coisas das
quais não sabemos, não temos mais qualquer razão para atribuir qualquer coisa a
forças mágicas, exceto pelos focos resistentes que ainda restam de pensamento
sobrenatural que pairam sobre nós tal qual vapor. É o momento para nós de
deixar de lado estes últimos traços de nosso passado supersticioso; temos a
sabedoria e a maturidade de encarar a verdade sobre quem e o que somos. Não há
nada de depreciativo sobre a base material de nossas mentes - nossos cérebros
são instrumentos realmente maravilhosos, cujo poder nos capacitou a fazer
muitas coisas incríveis, e é hora de começarmos a dar crédito ao que merece.
Atribuir os feitos de nossas mentes a um fantasma na máquina das nossas cabeças
é uma ideia que não pode mais ser suportada, e portanto deveria ser deixada de
lado de uma vez por todas.
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Archived text; originally from http://www.maxwellian.demon.co.uk/name.html
What is a Maxwellian Demon?
In 1871, James Clerk Maxwell (Scottish physicist,
biography
at St Andrews) proposed a thought experiment. A wall separates
two compartments filled with gas. A little "demon" sits by a tiny trapdoor in
the wall. It looks at oncoming gas molecules, and depending on their speeds it
opens or closes the trapdoor. The object of the game is to eventually collect
all the molecules faster than average on one side, and the slower ones on the
other side.
We end up with a hot, high pressure gas on one side, and a cold, low pressure
gas on the other. Conservation of energy is not violated, but hey presto,
we've redistributed the random kinetic energy of the molecules (heat) in such
a way that energy can now be extracted from the system (it can drive a gas
turbine, say).
Maxwell didn't call the demon in the story after himself of course. Norbert
Wiener refers to it as "the Maxwell demon", the phrase "Maxwell's demon" is
also often heard.
It's an excellent demonstration of entropy,
how it is related to (a) the fraction of energy that's not available to do useful
work, and (b) the amount of information we lack about the detailed state of the
system. In Maxwell's thought experiment, the demon manages to decrease the
entropy, in other words it increases the amount of energy available by
increasing its knowledge about the motion of all the molecules.
Thermodynamics says this is impossible, you can only increase entropy
(or rather, you can decrease it at one place as long as that's balanced by at
least as big an increase somewhere else).
So why wouldn't a setup like Maxwell's demon work? Well, any real "demon"
that does this would not be a disembodied spirit receiving its information
telepathically. To acquire information about the world you must be in physical
interaction with it, and on the atomic and molecular scale you cannot ignore
the quantum mechanical nature of the world. For instance, to be able to
see the molecules the "demon" would have to absorb whole photons at a time, and
any detailed version of the thought experiment will run into the uncertainty
principle and the fact that an interacting "demon" will acquire the same
temperature as the rest of the system.
The link between thermodynamics and quantum physics is even stronger:
macroscopic entropy can only be computed correctly from the cumulative
contributions from microscopic states if these are described quantum
mechanically.
Information theory is about the concept of entropy abstracted away from
physical systems, and applied to any context that deals with knowledge about
the state of a system (signal processing, communication, data compression,
encryption &c.). In fact, Shannon originally referred to information as
"entropy" (with a minus sign). In recent times, there have been interesting
developments in applying the ideas of information theory back to physics,
notably in dynamical systems theory, aka chaos.
Real-life versions of Maxwellian demons (with their entropy lowering effects
of course duly balanced by increase of entropy elsewhere) actually occur in
living systems, such as the ion pumps that make our nervous systems
work, including our minds. Molecular-sized mechanisms are no longer
found only in biology however, it's also the subject of the exciting new field
of nanotechnology.
So Maxwell's demon is an icon for our times, sitting at the crossroads of
information and the physical universe.